terça-feira, 23 de setembro de 2014

Alice | Carta à Alice…

Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo.
(Alice no País das Maravilhas)
Lewis Carroll

 

 

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Querida Alice, embora eu viva no seu mundo, você quase não conhece o meu. Com exceção de uma rainha de copas que anda rondando minha vida, em mim quase tudo é maravilha. E devo isso a você.

 

O seu sonho adentrou dentro do meu sonho e ganhou asas. O tempo, esse tão curto que o Coelho avisou, passou ligeiro por aqui. — nem vi meu filho crescer. Hoje, olho do lado e vejo um homem naquele menino que ensinei as primeiras palavras — nem percebi o som da fala, o bigode desenhado. Eu sempre vi ali, um menino. O meu menino. Que ganha asas e voa pelo mundo, independente de mim.

 

As paredes me apertam aqui, Alice. E sufocam meus pensamentos na ligeireza dos dias. E beber o líquido da vida me faz tão pequena. No mundo falta água. E vejo aqui, onde moro, o desperdício dessa bebida tão essencial. Um dia aprenderemos? — sei lá! Tenho medo! — Acho que não.

 

Mas ainda assim, no dedilhar dos meus dias maravilhas me alcançam onde passo. O riso solto de uma criança. O voo do meu beija-flor Chiquinho que me visita todos os dias de manhã, como se despejasse em mim no seu cantar a maravilha de viver.

 

Os animais me perseguem como a ti, Alice. Tenho aqui no meu quintal libélulas dançantes no varal onde minhas roupas dançam para secar. Borboletas pousam entre o aconchego de minhas mãos e na delícia dos dias vejo uma maravilha de gente na vida. Vejo-me nas metamorfoses das rotinas e sou invariavelmente rompedora de casulos de sonhos, de vontades e de desejos.

 

Dentro dos meus sentidos, Alice, percebo as coisas que acontecem ao redor como se eu fosse uma personagem viva dessa história. Converso comigo mesmo e isso acontece com frequência, o que causa uma certa estranheza no meu cachorrinho que procura por pessoas invisíveis e abana o rabo como se me considerasse louca. Por falar em louca, me vem à cabeça a rainha de copas que vive rondando minha vida. Mas como o próprio Coelho amigo seu disse: “os poços da fantasia acabam sempre por secar e o contador de histórias, cansado tentou escapar como podia: o resto amanhã... Já é amanhã!”

 

Então, vamos lá, Alice... viver a vida esperando que o resto seja hoje por que o eterno dura apenas esse breve instante de viver.

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