quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Personagem | Eugênio de Andrade

 

eugenio de andrade

 

Quando se conhece de fato um homem? Quando lhe sabemos o nome, o endereço, ou o número do documento? Dizem que é preciso sentar-se à mesa e provar de uma saca de sal em sua companhia. Será?  

 

Eu posso dizer que conheci Eugénio de Andrade: não o homem em si, mas o poeta que ofertou, em vida, pouco mais de  uma dúzia de versos e que, por escrever com a perfeição que me cabe dizê-la, foi considerado um dos maiores poetas portugueses contemporâneos...

 

A primeira vez em que nos "encontramos" foi na voz de seu tradutor, Carlo Vittorio Cattaneo, que levou suas linhas para o italiano. Publicou-se "escrita de terra e outros epitáfios" — poemas escritos entre 1971 e 1972 que, segundo dizem, eram um punhado de versos escritos a partir das preocupações de Eugénio, que nasceu José Fontinhas... em Póvoa de Atalaia, uma pequena aldeia da Beira Baixa, situada entre o Fundão e Castelo Branco, filho de uma família de camponeses: "gente que trabalhava a pedra e a terra"...

 

O que se reúne "nesse primeiro caderno" é toda a poesia do autor até aqueles dias. Um livro. Um texto e a certeza de que talvez pudesse não haver muito mais. Nunca se sabe quando o poeta morre, sabe-se apenas quando o homem vem a falir suas funções, deixando o corpo para habitar um infinito. Um vale — talvez um labirinto — do qual não se escapa...

 

Embalados por lembranças, seus escritos obedecem a princípios comuns. É possível ouvir uma voz antiga a ecoar seus dias de menino... e, com ela, uma euforia natural, agradável. Seus poemas, geralmente curtos, mas de grande densidade e aparente simplicidade, privilegiam a evocação da plenitude da vida e dos sentidos. É possível perceber a figura materna, presença constante, a lhe estender a mão e dizer o caminho... como também se faz sentir a presença do tempo, numa confusão comum aos escritores. Ele se perde em presente, passado e futuro — misturando-os... Mas há outros muitos elementos, como a morte que fala alto, forte e, por fim, o tempo, que passa a ser uma espécie de sirene a soar forte na pele imersa em rugas. Percebemos então o envelhecimento do homem...

Figura ébria. Sem sol. Apenas nuvens num deserto de si mesmo. Sua poesia é chuva ácida a corroer os campos da alma de quem a toma para si... ele se ajoelha e confessa com um sorriso branco-manso-e-sem-desenhos-de lábios as suas linhas: "poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria"...

 

Eugénio não poupava o coração, que pulsou pela primeira vez em 10 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, no seio de uma família de camponeses. Passou a infância a correr pelos campos ao lado da mãe. Ali, ganhou seu olhar de horizonte e percebeu que o silêncio é bebida sagrada, dessas que bebericamos em pesados goles, sem que o cálice se esvazie... Eugénio soube, desde então,  que, depois que se prova desse "líquido abençoado", só é possível sangrar palavras...

 

Enquanto homem, habitou muitos lugares, sem pertencer a nenhum deles. Da mesma forma, sua palavra não encontrou esteio nos movimentos literários e, se não os ignorou completamente — olhou de canto de olho — mas não se ausentou das publicações em revistas...

 

Eugénio, o poeta, tinha uma escrita metafórica — imersa em ritmos — quase uma música que se ouve e decora, para repetir seus versos num fim de tarde qualquer, quando as lembranças saltam de dentro da  pele e a realidade é essa pausa necessária no tempo presente para se somar iguarias... "onde um beijo sabe a barcos e bruma / no brilho redondo e jovem dos joelhos / na noite inclinada de melancolia / procura. / Procura a maravilha”...

 

 

Urgentemente

 

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

 

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos, muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

 

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

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