sábado, 28 de junho de 2014

Personagem | Cecília Meireles

cecilia meireles

 

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno”.


Cecília Meireles nasceu no Rio, em 7 de novembro de 1901, mesma cidade em que morreu, a 9 de novembro de 1964. A menina foi criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides. A paixão pelos livros e a leitura norteou toda a vida de Cecília — desde a juventude até a sua vida adulta. Aos 16 anos, se diplomou professora. A vontade e o fascínio pelo "saber" a conduziram para o estudo de outros idiomas e para o Conservatório Nacional de Música, onde teve aulas de canto e violino. Ainda que "fizesse versos" e compusesse cantigas como se estivesse a "construir" brinquedos desde a escola primária — é na adolescência que Cecília Meireles começa a "escrever poesias".

Em 1919, aos 18 anos, ela publica seu primeiro livro de poemas — "espectros" — iniciando um período de grande produção.

 

(...) “Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano”.

 

Casou-se com o artista plástico português Fernando Correa Dias que viria a ser o ilustrador de futuras obras da poeta e pai de suas três filhas. Três Marias. Elvira, Matilde e Fernanda. Um ano depois do casamento, Cecília Meireles publicou — "nunca mais... E poema dos poemas". Em 1925 veio o terceiro livro — "baladas para El-rei" — mais tarde, esses trabalhos seriam excluídos de sua biografia pela própria poeta.

Em 1949 lançou o livro — "retrato natural" — que foi recebido pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, que na época assinava uma coluna no Jornal de Letras do Rio de Janeiro: "Uma espécie de retrato natural da fisionomia da Sra. Cecília Meireles, e que a situa definitivamente na corrente tradicional dos poetas peninsulares... Com a Sra. Cecília Meireles, o verso português não sofre nenhuma distorção violenta. Apenas ficou mais fluido, adquiriu uma diferente e surda musicalidade. Bem a qualificou outro grande poeta, João Cabral de Melo Neto: libérrima e exata." 

Cecília não se juntou aos modernistas, embora tenha trocado intensa correspondência com um dos líderes do movimento — Mário de Andrade — de quem foi amiga e, despediu-se dele como se soubesse de seu fim antes do derradeiro desfecho da história do homem que lia suas linhas e, as corrigia - indicando o melhor caminho. Em seu último livro, ele foi decisivo nas escolhas dos versos e, na correção de muitas linhas. Ela tinha pressa de ter o livro em mãos para fazer chegar aos olhos do poeta — disse Cecília em tom de lamento "nunca há tempo o bastante — nunca há tempo" — ele, Mário de Andrade não pousou os olhos nos livros da mulher poeta que jamais admitiu a alcunha "poetiza" por considerar a palavra menor e sem importância.

Se fez poeta e em suas linhas nos brindou com o olhar agudo sobre si mesma. Sua dor escorre nas metáforas empregadas e, sobretudo, nas palavras que se repetem, como o mar - sua maior obsessão - e, a morte - o destino final de todos que despertam para a vida. Cecília não fala em medo - o que se percebe é uma curiosidade quase mórbida pelo fim, afinal, enquanto artista sabia do destino que entregava a pena, enquanto figura humana dependia da misericórdia de um deus que durante muito tempo buscou entender.

A mulher que esperava os filhos adormecerem para começar sua arte — durante algum tempo deixou de lado a poeta para dar voz a Educadora que sempre pensou na necessidade de uma educação plena, mas ao bradar seus anseios aos quatro cantos encontrou resistência por parte de certos senhores que sabem bem o peso da palavra bem empenhada. Voltou a poesia e com ela morreu Cecília. (...) “Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade”.

 

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

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