sexta-feira, 27 de junho de 2014

Carta ao Leitor

CASA INABITADA.

— VIRGINIA CELESTE

 

a ignorancia se tornou um crime indesculpavel

 

Não quero nos desejar um ano melhor. Quero que sejamos melhores para esse novo ano.  Eu nem tenho essa necessidade de finais/ começos de coisas: fui à minha formatura obrigada, não fui assinar papeis de casamento, não gosto de festas de despedidas e não faço questão de réveillons: não entendo a vida em ciclos. Vejo nossos passos como um emaranhado de linhas e a morte, bem, ela é o arremate final.

 

2013 foi um ano bom: se eu ainda tinha alguma dúvida de que nasci para ensinar, essa se desfez. Adoro alunos e alunas me procurando nos corredores; pessoas desesperadas te procurando no Facebook para ter orientação sobre algum assunto; pessoas que acreditam que o que você fala é verdade – quando você sequer acredita que a verdade exista. E eu digo isso a eles: o quanto vemos através de espelhos essa realidade que nos escapa!

 

Ser professora alimenta meu ego. Também muita coisa fez sentido palpável: em junho, em nossas manifestações roubadas por Coxinhas (vade retro!), parei para pensar no que entendo sobre justiça social. Em meio àqueles gritos dispersos de protestos sem noção política alguma, lembrava muito de meu pai e de quando este me dizia que, se faltava leite para uma família era porque tínhamos sobrando em casa. O resto é mimimi. E esse mimimi de classe média já deu!

 

Daí hoje vieram me desejar mais dinheiro e mais tantas-coisas-que-eu-já-tenho-que-não-podia-ter-mais. Fora a saúde, estou dispensando o resto, por mais bem intencionado que os outros desejos sejam, eu estou passando a

frente.

 

A gente sempre se convence de que precisa mais do que já tem, já dizia mais ou menos Renato Russo na música Índios. Por isso, não me desejem dinheiro: o que eu tenho dá para ter casa, comida, cuidar dos meus animais, pagar uma boa internet e ainda me dá luxos de comprar coisinhas nerds de vez em quando. Isso já é mais do que muita gente tem. Não quero mais. Obrigada.

 

Felicidade? Gente, desejem felicidade para quem não tem teto, para quem não tem trabalho, para quem não tem chance, para quem não tem comida. Eu serei bem mais feliz quando passar e não ver gente na rua, no frio, ao relento.

 

Alguém me desejou mais livros para ler… esses dois anos que passei longe da academia, me fizeram ver tantas coisas novas. Coisas que os livros não dizem. Coisas que os livros não suportam. Coisas que se assemelham apenas ao ato de sangrar: é preciso sentir, nenhuma mimese funciona.

 

Que em 2014 esta Casa continue em pé, mesmo com a morte a pôr umidade da parede e cabelos brancos nos homens, como diria Fernando Pessoa.

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