domingo, 29 de junho de 2014

Cafeína na Veia | A POESIA QUE SE LÊ HOJE EM DIA

 

Por Tatiana Kielbeman

 

diary

 

 

Já deixou de ser novidade que o mundo gira de maneira cada vez mais veloz e, em incontáveis momentos, o ser humano se vê atropelado por seus próprios passos.

 

Não raro, isso acontece até mesmo sem querer: planejamos aquela leitura tão esperada, o passeio diferente em família, encontrar um amigo que não vemos há meses e... num piscar de olhos, tudo o que havia sido programado vai por água abaixo.

 

O que ocorre não é falta de vontade, nem displicência: o tempo simplesmente escorre pelas nossas mãos, fazendo com que compromissos de trabalho, reuniões urgentes e imprevistos de última hora se sobressaiam em relação aos demais itens da rotina. Perdemos a noção de prazos e, uma vez que tudo se tornou tão urgente, fica difícil priorizar ou fazer escolhas.

 

Em meio a essa reflexão, eu me pego pensando na poesia. Sim, na poesia! Não aquela rebuscada, que se diz feita para literatos. A poesia nossa, de cada dia...

 

Quando foi a última vez que você se permitiu pegar um livro aleatório em sua estante e ler — para si mesmo — um punhado de versos? Ou entrou em certa livraria, despretensiosamente, e passou alguns instantes degustando estrofes?

 

Garanto que, mesmo que você seja amante de leitura, poucas vezes oferece a si mesmo esse deleite. Talvez opte por comprar os novos títulos dos seus autores preferidos logo que são lançados, até mesmo pela internet — o que acaba por tirar um pouco do prazer visual que antecede a aquisição de um bem tão subjetivo como é o livro.

 

Em um panorama de velocidade, dinamismo e impaciência, nós — indivíduos vorazes — raramente nos damos ao luxo de parar por um instante e apreciar a beleza que o poético oferece.

 

Não há pausas. É preciso produzir, caminhar, seguir, trabalhar, agir. Ler? De preferência, se for algo voltado a trabalho — e rápido. Não temos tempo a perder. Mas, com isso, quanto será que também deixamos de ganhar?

A poesia compete com a televisão, com o computador, com os smartphones e, por que não dizer, com o próprio sono, que anda escasso para os humanos que se inserem na sociedade de hoje em dia. Por que ler poesia se posso usar esse tempo para dormir? É triste, mas é real.

 

O que me conforta e se faz um alento para a alma é saber que têm sido lançadas, recentemente, coleções com a obra poética de grandes nomes da literatura brasileira e internacional. Livros de cabeceira, quase verdadeiras enciclopédias, para quem tem olhos de ver. De sentir. De se permitir encantar.

 

Além disso, talvez a poesia ainda esteja a salvo em saraus, rodas de leitura, peças de teatro e, principalmente, nas mãos daqueles que separam um pequeno espaço de suas vidas — tão corriqueiras e atribuladas – para ler e escrever versos.

 

A poesia anda escondida em algum canto por aí nos dias de hoje... Quem se puser a encontrá-la, certamente terá um tesouro inestimável nas mãos.

sábado, 28 de junho de 2014

Personagem | Cecília Meireles

cecilia meireles

 

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno”.


Cecília Meireles nasceu no Rio, em 7 de novembro de 1901, mesma cidade em que morreu, a 9 de novembro de 1964. A menina foi criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides. A paixão pelos livros e a leitura norteou toda a vida de Cecília — desde a juventude até a sua vida adulta. Aos 16 anos, se diplomou professora. A vontade e o fascínio pelo "saber" a conduziram para o estudo de outros idiomas e para o Conservatório Nacional de Música, onde teve aulas de canto e violino. Ainda que "fizesse versos" e compusesse cantigas como se estivesse a "construir" brinquedos desde a escola primária — é na adolescência que Cecília Meireles começa a "escrever poesias".

Em 1919, aos 18 anos, ela publica seu primeiro livro de poemas — "espectros" — iniciando um período de grande produção.

 

(...) “Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano”.

 

Casou-se com o artista plástico português Fernando Correa Dias que viria a ser o ilustrador de futuras obras da poeta e pai de suas três filhas. Três Marias. Elvira, Matilde e Fernanda. Um ano depois do casamento, Cecília Meireles publicou — "nunca mais... E poema dos poemas". Em 1925 veio o terceiro livro — "baladas para El-rei" — mais tarde, esses trabalhos seriam excluídos de sua biografia pela própria poeta.

Em 1949 lançou o livro — "retrato natural" — que foi recebido pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, que na época assinava uma coluna no Jornal de Letras do Rio de Janeiro: "Uma espécie de retrato natural da fisionomia da Sra. Cecília Meireles, e que a situa definitivamente na corrente tradicional dos poetas peninsulares... Com a Sra. Cecília Meireles, o verso português não sofre nenhuma distorção violenta. Apenas ficou mais fluido, adquiriu uma diferente e surda musicalidade. Bem a qualificou outro grande poeta, João Cabral de Melo Neto: libérrima e exata." 

Cecília não se juntou aos modernistas, embora tenha trocado intensa correspondência com um dos líderes do movimento — Mário de Andrade — de quem foi amiga e, despediu-se dele como se soubesse de seu fim antes do derradeiro desfecho da história do homem que lia suas linhas e, as corrigia - indicando o melhor caminho. Em seu último livro, ele foi decisivo nas escolhas dos versos e, na correção de muitas linhas. Ela tinha pressa de ter o livro em mãos para fazer chegar aos olhos do poeta — disse Cecília em tom de lamento "nunca há tempo o bastante — nunca há tempo" — ele, Mário de Andrade não pousou os olhos nos livros da mulher poeta que jamais admitiu a alcunha "poetiza" por considerar a palavra menor e sem importância.

Se fez poeta e em suas linhas nos brindou com o olhar agudo sobre si mesma. Sua dor escorre nas metáforas empregadas e, sobretudo, nas palavras que se repetem, como o mar - sua maior obsessão - e, a morte - o destino final de todos que despertam para a vida. Cecília não fala em medo - o que se percebe é uma curiosidade quase mórbida pelo fim, afinal, enquanto artista sabia do destino que entregava a pena, enquanto figura humana dependia da misericórdia de um deus que durante muito tempo buscou entender.

A mulher que esperava os filhos adormecerem para começar sua arte — durante algum tempo deixou de lado a poeta para dar voz a Educadora que sempre pensou na necessidade de uma educação plena, mas ao bradar seus anseios aos quatro cantos encontrou resistência por parte de certos senhores que sabem bem o peso da palavra bem empenhada. Voltou a poesia e com ela morreu Cecília. (...) “Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade”.

 

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Cafeína na Veia | Entrevista

]luciana, contos do poente

 

 

De palavras. Luciana é feita de palavras. Rita é feita de palavras. Com palavras fazem. Fazem histórias, fazem personagens, leitores fazem. De desenhos e cores é feita Joana. Com desenhos e cores faz viagens, faz viajores. Criam juntas, a tríade, um universo. Feminino universo.

 

Feminino? O que eu estou dizendo? Feminino e masculino compõem os versos que unem o universo – verso uno: avesso à cisão, uno e simples e complexo. Como as linhas delas e as entrelinhas delas – com elos entre desenhos e palavras... Nos contos, sonhos, memórias, fantasias se cruzam, se dissipam, se reacendem. Uma mulher, um homem, uma menina, outra mulher, outra menina, encontros, histórias...

Os textos e ilustrações (que também são textos), os textos e ilustrações deste livro estão vivos. Os bons textos são vivos. E livres. Sobrevivem ao tempo e transcendem distâncias. São livres, os livros. E dos leitores, os livros são asas.

 

Boa viagem a todos, sem mais bagagem que palavra e silêncio...

Por Henrique Beltrão

 

 

“A rua a recebe sem estranheza nem alegria, é mais uma na rua ensolarada, os transeuntes não sabem que ela tem um encontro, o asfalto não sabe, nem mesmo o sol que lá de cima parece tudo conhecer como um olho esfuziante, nem o sol sabe: ela tem um encontro. Os passos são ágeis, a idade verdadeira dá lugar à idade do passo de quem vai a um encontro. Sabe que está atrasada, mas não se apressa, não é preciso suar por um atraso de quarenta e nove anos. O seu sorriso, se alguém reparasse bem, bem serviria para um retrato de monalisa. Ela tem um segredo, ela tem um encontro.” — texto extraídos de Pérolas, escrito por Luciana Nepomuceno. Contos do Poente, 2013

 

Quando você soube que queria se escritora?

— eu acho que nunca soube. Não sei ainda se quero. Escrever não é uma opção ou escolha, é algo que faço, que me ajuda a existir. E, vez ou outra, me dá prazer. O caso do livro, escrevê-lo foi uma boa desculpa para estar mais próxima de pessoas admiráveis por quem tenho enorme bem querer.

 

De que maneira você descreveria o processo de escrita do seu livro?

— eu geralmente “vejo” frases na minha cabeça. E as burilo até ficarem do jeitinho que gosto, com alguma sonoridade. Sem escrever, só por dentro. Vou testando palavras. Quando estou satisfeita com a frase,  fico pensando onde ela poderia estar. Em que história ela poderia existir. Aí vou criando cenário praquela frase existir. Às vezes, ironicamente, na revisão do texto, a frase virou excesso e é cortada.

Esse processo é comum para os textos no blog, cartas pra amigos e também esteve presente na escrita do livro.

 

O que influencia a sua maneira de escrever? 

— os autores que li. As coisas que vejo na rua. As boas conversas no bar. A necessidade de dizer algo do que me é em vazios. E o cheiro do mar.

 

Como foi escrever um livro?

— foi uma festa. Ele foi forjado em encontros, cumplicidade e beleza. Serei sempre grata à Joana que teve a idéia de fazer o livro e à Rita por ser co-autora, amiga generosa, cúmplice na escrita e trabalhadora incansável. E foi uma surpresa reler os contos todos e achar que sim, alguém poderia gostar de tê-los na estante.

 

Qual foi a parte mais difícil de escrever um livro?

— dois momentos bem complicados: a) Começar. Acreditar que alguém poderia desejar lê-lo e b) depois de terminado, entregar os contos pra revisão. Aceitar sugestões, mexer ou cortar partes do texto. É difícil entender que já não é só meu, que outras pessoas vão ler e interpretar – algumas vezes de forma distinta do sentido que eu pensei dar.

 

O livro pra você é um objeto em primeira, segunda ou terceira pessoa?

— Flaubert disse: “Madame Bovary sou eu”. Acho que o que fazemos nos constrói  e, ao mesmo tempo, o que somos constrói o que fazemos e como fazemos.

 

Você tem um blogue. A voz a escrever para o livro é a mesma?

acho que a diferença mais significativa entre escrever pro blog e escrever o livro foi o artesanato embutido no aprimoramento do texto. Os posts dos blogs vão mais crus, menos trabalhados, com pequenos erros que, de certa forma, o enriquecem. O livro demanda um trabalho diferente, um olhar mais acurado. A beleza do post no blog é dada, em grande parte, pela sua fugacidade. O livro é o inverso, ele é (pra mim) mais interessante quando parece criar raiz nas estantes.

 

Quem é a pessoa do livro?

— difícil responder. No caso desse livro, onde foram tantas mãos e olhos e trocas, acho que a narrativa é conduzida não por uma pessoa, mas por emoções ou vivências que ganham corpo e voz temporários e que podem ser identificados e tocar quem (se) encontra (n)o livro.

Carta ao Leitor

CASA INABITADA.

— VIRGINIA CELESTE

 

a ignorancia se tornou um crime indesculpavel

 

Não quero nos desejar um ano melhor. Quero que sejamos melhores para esse novo ano.  Eu nem tenho essa necessidade de finais/ começos de coisas: fui à minha formatura obrigada, não fui assinar papeis de casamento, não gosto de festas de despedidas e não faço questão de réveillons: não entendo a vida em ciclos. Vejo nossos passos como um emaranhado de linhas e a morte, bem, ela é o arremate final.

 

2013 foi um ano bom: se eu ainda tinha alguma dúvida de que nasci para ensinar, essa se desfez. Adoro alunos e alunas me procurando nos corredores; pessoas desesperadas te procurando no Facebook para ter orientação sobre algum assunto; pessoas que acreditam que o que você fala é verdade – quando você sequer acredita que a verdade exista. E eu digo isso a eles: o quanto vemos através de espelhos essa realidade que nos escapa!

 

Ser professora alimenta meu ego. Também muita coisa fez sentido palpável: em junho, em nossas manifestações roubadas por Coxinhas (vade retro!), parei para pensar no que entendo sobre justiça social. Em meio àqueles gritos dispersos de protestos sem noção política alguma, lembrava muito de meu pai e de quando este me dizia que, se faltava leite para uma família era porque tínhamos sobrando em casa. O resto é mimimi. E esse mimimi de classe média já deu!

 

Daí hoje vieram me desejar mais dinheiro e mais tantas-coisas-que-eu-já-tenho-que-não-podia-ter-mais. Fora a saúde, estou dispensando o resto, por mais bem intencionado que os outros desejos sejam, eu estou passando a

frente.

 

A gente sempre se convence de que precisa mais do que já tem, já dizia mais ou menos Renato Russo na música Índios. Por isso, não me desejem dinheiro: o que eu tenho dá para ter casa, comida, cuidar dos meus animais, pagar uma boa internet e ainda me dá luxos de comprar coisinhas nerds de vez em quando. Isso já é mais do que muita gente tem. Não quero mais. Obrigada.

 

Felicidade? Gente, desejem felicidade para quem não tem teto, para quem não tem trabalho, para quem não tem chance, para quem não tem comida. Eu serei bem mais feliz quando passar e não ver gente na rua, no frio, ao relento.

 

Alguém me desejou mais livros para ler… esses dois anos que passei longe da academia, me fizeram ver tantas coisas novas. Coisas que os livros não dizem. Coisas que os livros não suportam. Coisas que se assemelham apenas ao ato de sangrar: é preciso sentir, nenhuma mimese funciona.

 

Que em 2014 esta Casa continue em pé, mesmo com a morte a pôr umidade da parede e cabelos brancos nos homens, como diria Fernando Pessoa.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Cafeína na veia | Por Lunna Guedes

 

“Termino uma xícara de café, seguro o livro em mãos — lanço um olhar de misericórdia junto a paisagem — enquanto me distancio de mim mesma ao mesmo tempo em que mergulho nessa realidade entre mundos. A xícara de café ao lado com seu líquido escuro-forte-negro é a minha âncora!”

 

Revista Plural

 

Eu não sei dizer quem foi a primeira pessoa a pensar na figura do escritor como sendo alguémsolitário-triste-a-viver-num-quarto-escuro — mas sei com certeza que ao longo dos anos a figura do escritor passou a participar do imaginário popular como alguém que habita um cômodo embaçado pela fumaça de um cigarro — escuro — com uma mesa onde uma máquina de escrever se mostra pronta para aquela “sinfonia” de palavras dividindo espaço com uma xícara suja de café, algumas garrafas, uma pilha de folhas do lado direito, um lápis preto para eventuais correções do lado esquerdo e o chão coberto por centenas de folhas amassadas.

 

Talvez por isso, seja tão difícil para as pessoas compreender que um escritor possa escrever em um movimentado café numa cidade como Paris, Londres ou mesmo São Paulo.

 

Escrever é um hábito — uma rotina, mas pode ser uma tortura para pessoas que precisam de um santuário sagrado para por em prática as suas idéias. Isolar-se não é exatamente uma necessidade. O escritor precisa renovar-se — inventar-se, as vezes reinventar-se — e, não existe melhor maneira de conseguir isso que estar bem no meio da turbamulta. Não existe mística, cerimonial ou receita ideal — o que existe realmente é o lugar onde sua alma se aconchega e o corpo se liberta da tal realidade enfadonha que maltrata os olhos e impede os dedos de pincelar aquela ilusão que o cérebro germina. Pode ser um quarto escuro, o banco de uma praça ou o acento de um ônibus lotado — a mesa de um café ao fundo junto a uma janela de frente para uma rua movimentada. Seja qual for o cenário, o importante mesmo é encontrar-se em si mesmo.

 

Alguns escritores são mais vulneráveis às distrações do cotidiano do que outros. O inglês Charles Dickens, por exemplo, apesar de muito produtivo — só conseguia trabalhar no mais absoluto silêncio. Ele precisava de sua mesa cuidadosamente decorada e, de frente para uma janela. Já a inglesa Jane Austen parecia ser possuída por uma invejável concentração inabalável — a autora morava com a mãe, a irmã, uma amiga e três criadas numa casa que recebia visitas constantes. As interrupções não a impediram de escrever romances como Orgulho e Preconceito e Mansfield Park em pequenos pedaços de papel que ela escondia para dar atenção aos convidados.

 

Figuras indômitas que vivem imersas em manhas e manias — os escritores, em geral — são vistos como figuras excêntricas. Quem olha de longe — a primeira vista — talvez não os reconheça, mas basta alguns minutos de atenção para sabe-los. Introspectivos e silenciosos. Completamente desligados do mundo a sua volta. Sentados sempre no canto oposto a multidão — e totalmente focados em si mesmos. A melhor companhia para eles é um bloco de notas ou em tempos modernos, um computador. A presença humana ao lado deles é quase sempre dispensável porque escritores raramente não são figuras sociáveis.

 

É praticamente impossível citar um único escritor que não tenha um hábito estranho ou um vício dito maldito. Basta ler a biografia de certos senhores e senhoras para descobrir algumas de suas euforias. Virginia Woolf dizia que um escritor precisa ter um quarto pra chamar de seu com uma mesa e uma prateleira de livros. Honoré de Balzac tinha uma rotina de trabalho que para muitos beirava a insanidade. Ele jantava às 18 horas. Dormindo em seguida para acordar a 1 da madrugada e trabalhar até às 16 horas embalado por dezenas de xícaras de café. A escritora de suspense Patrícia Highsmith costumava beber uma dose de vodca antes de escrever e, Borges tinha sua cadeira cativa em um famoso café em Buenos Aires onde dizem, escreveu o seu melhor. 

 

Em tempos modernos, os Cafés das principais cidades do mundo tem sido povoada por escritores. As gerações se encontram sem o confronto direto. Uns escrevem novelas, outros romances. Alguns apenas rabiscam versos – mas a grande maioria se embriaga de café forte como se o líquido fosse  um elixir sagrado. Evandro Affonso Ferreira, autor de “minha mãe se matou sem dizer adeus” confessa “escrevo todo dia à mão nas mesas de confeitarias, cafés e livrarias da cidade. Carrego sempre na minha pequena mochila um caderno e algumas canetas. À noite passo tudo para o computador. Meus três últimos livros foram escritos assim”.

 

A Srta. Rowling escreveu seu primeiro Harry Potter  no aconchego de um café em Edimburgo “meu lugar ideal para escrever é em um grande café com um pequeno canto onde haja uma mesa perto de uma janela com uma boa vista para uma rua interessante para onde possa olhar de tempos em tempos em busca de inspiração. Gosto de café bem forte e, do movimentos dos baristas e dos frequentadores do lugar – nada me distraí ali, tudo me inspira. Senti muita falta desse cenário ao escrever meu novo livro” – lamenta-se a autora que por causa da sua fama, já não consegue mais exercer seu ritual de escrita.

 

Não há dúvidas que a autora do bruxo mais famoso do mundo ajudou a impulsionar em muitos escritores o desejo de escrever em Cafés que são ambientes onde o objeto de adoração é a xícara e o aroma que se precipita junto a um diálogo de iguais. O escritor ali ao lado é um estranho que passa em branco – não chama a atenção – pode ser visto como um estudante que prefere o lugar para não se sentir tão sozinho. Um profissional liberal que faz da mesa o seu local de trabalho ideal ou um simples leitor que quer um instante apenas para si – e, ali ao lado, o escritor a dizer-se em linhas…

 

Lembro-me do tempo em que café era pra mim a companhia para o bolo recém-assado nas tardes de março lá em casa — servido em canecas individuais – a gente se sentava a mesa e os diálogos se precipitavam. Era o nosso momento. Na casa da nona, as canecas de café vinham acompanhadas por uma fornada de biscoitos com gotas de chocolate lá pelas nove horas da noite. Naquele tempo a gente dormia cedo.

 

A minha primeira visita a um desses Cafés aconteceu em meados dos anos noventa — em Paris — cenário inusitado para os meus olhos. Lembro-me de ficar anestesiada com aquele lugar com mesas junto às calçadas e, do lado de dentro um falso fim de tarde que a decoração interna “provocava” nos olhos. Havia um sem fim de pessoas lendo jornais, livros, revistas – dialogando suas realidades e, apenas uma senhora a escrever sobre a perna direita em um caderno. Ela estava tão concentrada que parecia ser impossível demovê-la daquele gesto. Ao seu redor aconteciam diálogos inteiros — pela metade. Olhos buscavam por outros olhos. Mãos buscavam por outras mãos e, ela ali em seu silêncio imperturbável. De imediato — confesso — pensei em me apropriar daquele gesto que viria a se tornar uma espécie de ritual em meus dias. Sentar-me em uma mesa de Café é o mesmo que despertar meu consciente para outra realidade – inaugurando-me em mim mesma,  provando de minhas memórias em cada gole de café forte ou em cada movimento que se precipita junto a mim.

 

É justamente para esse lugar entre esquinas que levo o livro, o computador, o caderno de capa vermelha e as muitas notas mentais que se precipitam durante os passos pelas calçadas. Tudo isso se "ajunta" nessa espécie de diálogo — solitário — que as vezes alcança o outro que ocupa a mesa ao lado. Aqui em São Paulo eu ocupo as mesas da Starbucks desde que a mesma inaugurou seu espaço no ano de 2006 na Alameda Santos e, já tive que responder muitas vezes as mesma pergunta “como você consegue escrever num lugar desses com tanta gente entrando e saindo?” –  seria simples dizer que escrever é o mais solitário de todas as atividades e, na hora de enfrentar essa grande e devastadora solidão, cada um tem sua própria receita infalível…

 

Em tempos contemporâneos, ainda são muitos os escritores que sigam olhando de lado para os Cafés e seus cenários inusitados – sem se deixam seduzir – preferindo o conforto de seus quartos escuros. Alguns ainda confessam acalentar secretamente essa vontade como é o caso de Liliane Prata “na verdade, há três anos, quando comecei a trabalhar em casa, era esta cena que eu visualizava na minha cabeça: eu num café, com meu lap top, escrevendo. Seria minha vida refinada. Para que ficar sozinha o dia todo em casa, de pijama, na frente do computador, me virando com meu bule e meu coador de pano? Estaria num agradável café, comodamente ajeitada numa cadeira, bem concentrada, bem cosmopolita, pedindo mais um expresso. O fato é que três anos se passaram e eu continuo em casa, de pijama, na frente do computador, me virando com meu bule e meu coador de pano. Sempre vou a cafés, mas para ficar à toa, ler ou encontrar os amigos. Assim como continuo sem comer maçãs na rua”. Na mesma linha está também a jovem escritora Tatiana Kielberman  “confesso nunca ter me concedido a oportunidade de escrever em um café, nem mesmo de passar horas folheando meu livro predileto sob o aroma desta bebida que me é tão cara... Esses não deixam de ser desejos verdadeiros da alma, mas é como se precisassem de um planejamento, de todo um ritual para acontecer... Penso que, quando eu puder me desprender de normas ou regras, talvez consiga oferecer a mim mesma tais regalias de modo cotidiano... E, então, nem restam dúvidas de que não vou querer outra vida! Ah! Se precisasse escolher um local para debutar, certamente seria a Starbucks da Alameda Santos, em São Paulo, pois a partir dos cafés compartilhados com amigas, aquele ponto de encontro já se tornou sinônimo de aconchego e leveza para mim”.

 

O fato é que o escritor precisa encontrar uma posição confortável e, nela permanecer porque uma habilidade comum a todo escritor é a de sentar-se quieto para poder embalar sua monotonia. O estado criativo que embala a mente dos artistas geralmente culmina em um estado de espanto – onde tudo é possível, menos existir em si mesmo.

 

“Prefiro escrever de manhã, mas raramente consigo.
Há alguns anos abandonei meu quartinho e comecei a sair pra trabalhar.
Escolhi alguns Cafés da cidade. Quando engreno num conto ou romance,
tenho o hábito de anotar frases em papéis soltos e superfícies aleatórias —
já tomei muitas notas em guardanapos. Resolvo muita coisa nesses momentos,
quando não estou “oficialmente” escrevendo — é aí, em geral,
que as melhores ideias aparecem. Não existe prazer maior que passar
pro computador um bom trecho de prosa rascunhado num pedaço de guardanapo.
Parece que o mundo se organiza. Minha gasolina é o café, forte e sem açúcar, de preferência recém-passado no coador ou saído daquelas máquinas de expresso”.

 

Chico Mattoso
autor de Nunca vai embora.