sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Personagem | Sylvia Plath

 

A poesia que sinto é uma disciplina tirânica, você tem que ir tão longe, tão rápido, em um espaço tão pequeno, que você apenas tem que desviar de todos os periféricos. E eu sinto falta deles! Eu sou uma mulher, eu gosto de curiosidades, e eu acho que num romance posso obter mais da vida. Talvez não seja uma vida tão intensa, mas certamente mais da vida” –, escreveu Sylvia Pltah em seu diário.

 

 

 

plath

 

 

 

A morte, quase sempre, é o elemento definitivo na vida de certos escritores, como o foi na vida de Sylvia Plath que perdeu seu pai, o herói Otto Plath quando tinha oito anos – ela jamais se recuperou dessa perda. Nadou mar a dentro – até onde pode, mas o mar recusou seu corpo, sua metáfora. Devolvendo-a para a praia… Mas a menina já não era mais a mesma. Ninguém encara a morte de frente e continua sendo o mesmo. Sylvia passou a ser alguém completamente fascinado pela morte.

 

Poucos sabiam. Conhecê-la não era uma tarefa fácil. Quem percebia sua bela figura atravessando ruas, dobrando esquinas – entrando e saindo de casa não poderia imaginar, seque supor que as tempestades que pesavam sob o semblante amável da jovem de gestos pequenos e movimentos poucos…

 

Sylvia nasceu em Boston em 1932 – trabalhou na revista Mademoiselle em Nova York e pouco depois mudou-se para Inglaterra, indo estudar em Cambridge. Sylvia estudava, escrevia, publicava seus artigos em revistas e jornais e desde a infância escrevia em seus diários chamados por ela de “mar de sargaço”…

 

Casada com o garanhão Ted Hughes com quem teve dois filhos – o cansaço passa a fazer parte de sua anatomia tanto quanto a falta de tempo. Sua vida vai num crescente infernal e as tentativas de suicídio se multiplicam. Neurótica, intempestiva – ela criava enquanto destruía a si mesma com a mesma fúria que parecia ser uma espécie de argumento tão necessário quanto respirar.

 

Ted Hughes acabou deixando Sylvia para viver com a amiga Assia Gutman – mas a separação nunca foi total. Ela continuou a viver pra ele – frágil, o abalo a levaria ao fim, mas enquanto a última página não era virada, Sylvia escrevia Ariel, lançado postumamente. Era uma narrativa baseada em seu estado de espírito. Sua crescente solidão, seu estado frágil de saúde e sua condição inadequada de existir em meio as obrigações cotidianas de uma dona de casa separada.

 

A última página é escrita na madrugada do dia 11 de fevereiro de 1963 quando Sylvia prepara o pão e o leite das crianças. Agasalhando-as. O último olhar confessa a despedida como se fosse um ensaio repetido dúzias de vezes sem a certeza que agora permeia sua pele. Os beija e veda a porta do quarto. Vai até a cozinha. Limpa a mesa, a pia e já sem tristeza em sua pele, como se estivesse finalmente prestes a libertar-se dos pesos que incorrem sua matéria gasta, abre o forno e deita a cabeça dentro. Ela se dá asas… Abraça a morte – seu fim… As palavras, contudo – sobrevivem, como de costume.

 

 

“Esses meus novos poemas têm uma coisa em comum. Foram todos escritos em torno das quatro da manhã – naquela hora ainda azul e quase eterna, antes do choro do bebê, antes do tilintar musical do leiteiro arrumando suas garrafas”. – escreveu Sylvia.

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