segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

DAS PRATELEIRAS PARA UMA INFANCIA PERDIDA

Por Tatiana Kielberman

 

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Fui uma criança triste. Solitária... que vivia às voltas com meus pensamentos angustiantes de garota... Hoje, percebo o quanto não me sabia em mim – o que de certo modo foi bastante proveitoso, pois me possibilitou as infinitas descobertas que vieram anos depois.

 

Mas, desde o princípio, lembro ter possuído uma doce companhia que nunca me recusou abrigo: os livros... Não foram poucos os instantes nos quais a leitura conseguiu preencher minha alma — encolhida... vazia.... só. Ainda que a voz dos livros fosse —por tantas vezes — silenciosa, eles conversavam comigo durante a infância toda.

 

Em sua maioria, eu os ganhei de presente dos meus tios-padrinhos queridos... que pretendiam incentivar a prática da leitura, fazendo questão de preencher minhas estantes com múltiplas coleções — que variavam desde a literatura primária direcionada a crianças, à algo mais adulto ou infanto-juvenil. Nunca me presenteavam com um livro só: eram sempre dezenas deles, de um colorido sem igual.

 

Alguns títulos ainda são presença viva em minha memória: “Moby Dick”, “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, “Pollyanna”, “Tati, a garota”, “O Apanhador no Campo de Centeio”, “Rosalinda”, entre tantos outros que eu poderia citar aqui...

 

Há também os autores consagrados, que inevitavelmente permeiam a lembrança quando retomo os tempos de menina: Tatiana Belinky, Monteiro Lobato, Ana Maria Machado, Eva Furnari, Maurício de Souza, Ziraldo, Ruth Rocha... isso sem falar nos clássicos contos de Andersen e dos Irmãos Grimm, que também cerceiam meu ímpeto literário até hoje.

 

Posso gritar aos quatro ventos que, se houve certa espécie de recompensa na vida até os meus onze anos de idade, ela se deve muito à leitura... aos livros que degustei, em casa e nas livrarias: foram, sem dúvida, o meu melhor entretenimento. Minha maior paz. Meu motivo para acreditar num possível dia seguinte...

 

Tenho consciência do quanto devo me considerar sortuda, afinal, naquela época não havia computadores, nem smartphones. A tecnologia não era disseminada como é hoje e, portanto, o contato com a leitura conseguia se demorar um pouco mais.

 

Era permitido sorver as histórias ao máximo e praticamente vivenciá-las, pois cada obra atuava como um espelho do nosso mundo ideal.

 

É realmente uma pena que — atualmente — o mundo globalizado tenha banido tal graça da vida das crianças. Formam-se jovens evoluídos tecnologicamente, mas poucos deles têm o real prazer de pegar um livro em mãos e devorá-lo por horas, sem a necessidade de se distraírem com o celular ou com o notebook.

 

São tempos estranhos estes que vivemos, mas ainda tenho a esperança de que a leitura possa salvar outras infâncias por aí, do mesmo modo como salvou a minha...

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