quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Catarina voltou a escrever,

Por Lunna Guedes

 

catarina voltou a escrever

 

 

Eu tinha quase vinte – ela vinte e seis. Eu era recém chegada e ela parecia estar lá desde sempre. Tinha olhos cor de caramelo e os meus eram cor de café expresso. Sentava-se na primeira fileira de cadeiras e eu fui logo sentar-me mais ao fundo... Não nos falamos nas primeiras vezes, apenas nos olhamos rapidamente – foi como tropeçar. Ela tinha marcas na pele. Um dragão e uma meia lua. Minguante ou Crescente - não me lembro, mas também tanto faz. Eu tinha apenas uma cicatriz branca dos meus tempos de menina. Joelho rasgado. Sangue a escorrer. Raiva a gritar nos punhos fechados...

 

Eu ouvia Led Zepelim e ela Pearl Jam. Ela se vestia de preto e eu naqueles dias só queria saber do vermelho. Eu era febril – ela delirava... Não lembro qual das duas falou primeiro. Lembro apenas dos diálogos insanos que tecemos dentro das tardes alaranjadas. Ela não tinha em suas palavras uma só gota de realidade. Era muito assustador, mas completamente saboroso...

 

Ela era uma menina-mulher-figura-estranha-complexa-doida-que-adorava-lacan – cursou apenas o primeiro ano de psicologia. Surtou e acabou internada. Não me deixaram vê-la – afinal, eu era uma simples estranha e nada mais. A estranha que ficou com um caderno de notas onde ela escreveu a mesma palavra dúzia de vezes: "desire".

 

Eu era a estranha que se apresentou a ela com um sorriso bobo no rosto e ao dizer seu nome foi como ouvir um eco.

 

 

Catarina...

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