quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Questão de tonalidade

Por Jana Lauxen

 

O problema era a cor do rapaz.
Não dava para tolerar!
Não naquela família, de casta tão legítima.
Nunca, nem uma única vez desde sua origem, algum membro do clã Silva e Souza envolveu-se com alguém daquela coloração.
E agora a filha caçula e mais problemática vinha com essa novidade: namorar um sujeito de cor.
Logo daquela cor!
O pai, quando conheceu o rapaz, foi incapaz de emitir uma palavra.
Passou a noite inteira emburrado, resmungando, os braços cruzados a encarar o dito-cujo.
A mãe até tentou fingir simpatia, pelo menos educação, mas tudo que demonstrou com seus trejeitos e expressões foi nojo.
O irmão mais velho negou-se a dar a mão em cumprimento ao rapaz, e saiu batendo porta, amaldiçoando aquela laia imunda.
Até a empregada manteve-se cuidadosa, para não encostar-se ao garoto enquanto servia o jantar.
Quando o menino foi embora, os pais sentaram para conversar com a filha:
— Não pode.
— Não dá.
— Por quê?
— Você chegou a reparar na cor dele?
— O que é que tem?
— Como assim, o que é que tem? Tem que a cor dele é muito diferente da sua, e todo mundo sabe que pessoas da raça dele não podem, não devem e não precisam se misturar com pessoas da nossa raça.
A filha começou a chorar.
O que iria fazer, se não podia ver um alemão bem branco e bem rosado que gamava?

 


 

Jana Lauxen é escritora, autora do livro Uma Carta por Benjamin (Ed. Multifoco, 2009). Colunista da revista Café Espacial, publicou pela Mojo Books a historieta Pela Honra de Meu Pai. Publicou em mais de doze coletâneas, e organizou seis em parceria com outros escritores. Foi editora da versão brasileira da revista eletrônica inglesa 3:AM Magazine, e também uma das idealizadoras do projeto
E-Blogue.com (in memorian). Atualmente trabalha na Editora Multifoco e prepara-se para lançar seu segundo livro, O Túmulo do Ladrão.

 

 

E-mail para contato: multifoco.jana@gmail.com

Site: www.janalauxen.com

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