segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Hoje é dia de Marias

..:  E.n.t.r.e.v.i.s.t.a  :..

 

maria cininha

 

Não existe uma leitura ideológica nas colagens e desenhos de Maria Cininha, mas um reforço da postura de felicidade que se encontra nas várias condições de vida. Condições essas que se formam pelo olhar atento às reações e às transformações do corpo fantástico. Em suas obras, as bonecas sorriem, choram e podem chegar ao extremo do deboche. Os animais, também, em formas mínimas ou grotescas, demonstram uma produção de desejo por conta de um conforto íntimo com seu ambiente.

As formas vazias apresentam os vazios plurais – esses que a gente entende sem precisar de tradução. E as cores deixam seus estados populares a fim de projetarem um lugar em que o conto e o dia-a-dia se naturalizam em uma mesma paisagem.

 

marias

 

Como e quando apareceram as Marias?

Eu habito um mundo feminino e gostaria de falar dele, mas de maneira diferente. Então aos poucos fui buscando uma forma que fosse alegre, brincalhona, irreverente, colorida, poética, as vezes seria e triste, como qualquer um de  nós. Mas que sua forma literalmente fosse inusitada; não ilustração de revista feminina, e sem apelo feminista. As Marias são as meninas que moram dentro de cada mulher.

A primeira Maria surgiu, em 2010, pela luta por uma árvore, de uma calçada do bairro onde moro. Um Ipê amarelo que foi cimentada até o colo e subindo pelo seu tronco por 10 centímetro, e os sujeitos que fizeram isso ainda pintaram o cimento de verde. Naquela situação de procurar órgãos públicos, policia ambiental e até deputado nasceu a serie “Marias” meninas atenta ao que acontece ao seu redor, brincalhonas, mas que quando precisam vão à luta.

 

Como é a cidade das suas Marias?

A cidade das minhas Marias é São Paulo. A cidade onde nasci que tento achar que é dispensável, mas que esta impregnada em tudo que eu faço. Ela é o avesso do que eu espera e sonhava  dela como cidade, mas como diz a canção “o coração tem razão que a própria razão desconhece”, me rendo a ela. As Marias são  as meninas que moram que moraram e que ainda vão nascer nesta cidade. Quando elas falam de calçadas, de amores perdidos, de horário de verão, de festas, da falta de água, da chegada da primavera, do canto do sabiá, elas falam a partir de um lugar: São Paulo. Mas isso não que dizer que não seja espelho de outras tantas outras cidades do mundo.

 

Você é de São Paulo e vive em São Paulo. 

Essa cidade tem algum encanto especial pra você?

Costumo dizer que São Paulo é um amor bandido. Aquele amor a quem você entrega tudo e ele não retribuí nada. Mas, é um exagero, não é sempre assim. Eu tentei morar fora de São Paulo e depois de seis anos estava de volta, e pretendo nunca mais sair. Depois é a terra que meus avôs escolheram quando aqui chegaram, a terra que nasceram meus pais e a terra que nasceram meus filhos. A minha história esta sendo escrita aqui. Assim nesta cidade estão minhas experiências afetivas e momentos significativos da minha vida. Fora tudo isso eu tento me reconhecer aqui, no entorno material que se modifica constantemente que apaga sinais, vestígios, cria lacunas, imagens que oscilam entre a recordação e o esquecimento total. Sofro pela falta de políticas que preservem espaços históricos da cidade, porque antes de tudo preservar significa (re)apropriar-se, resgatar um sentido. Por este motivo estou de mudança para um Studio na Praça da Republica no centro de São Paulo. Uma escolha que vem da minha busca por um encontro afetivo, um olhar evocativo, sonhador, por esta cidade, “minha cidade” com sentido de “lugar de vida”.

 

Como a arte entrou em sua vida?

Eu acho que desde garota, quando o lugar que mais gostava de brincar era no barracão de ferramentas do meu pai. Mas a vida me levou para outros caminhos e durante anos fui empresaria, fiz faculdade e mestrado na maturidade, as coisas andam meio fora de hora para mim. Mas paralelo ao meu caminho profissional estava à arte. Li muito fiz curso de pintura, desenho, frequentava exposições e museus. Até que aos 46 anos resolvi fazer a Faculdade de Belas Artes de São Paulo.

O recorte e colagem vieram mais tarde. O papel sempre foi o meu suporte preferido. A tela eu descartei logo no inicio dos meus estudos de arte. Mas a colagem entrou na minha vida quando fiz a dissertação de mestrado.

Nela pesquisei criatividade e envelhecimento, mas precisamente se a criatividade diminuía com passar do tempo, ou seja, se era mais uma perda do envelhecimento. Para esta pesquisa trabalhei com obras de velhos pintores que morreram com mais de 80 anos, um deles Henry Matisse. Matisse teve um problema de saúde que o deixou nos seus últimos 14 anos de vida em uma cadeira de rodas ou uma cama, que o impedia de pintar. Ele em fez de desistir e se conformar com sua incapacidade se volta para os seus famosos recorte e colagem. Mesmo sem saber da sua história de superação, o colorido, as formas desenhadas pela tesoura de Matisse são muito fáceis de amar.

No começo fiz releituras dos recortes de Matisse, entretanto buscando minha própria voz na técnica. Procurei uma arte alegre, lúdica e colorida. Passei por varias fases: bichos, passarinhos, retratos, as Marias e outras que virão, mas sempre com o foco no lúdico.

A arte que crio me diverte me faz sorrir e por com seguinte faz o mesmo com as outras pessoas. Dos cinco anos no Flickr e nos três anos no blog, e agora no Facebook noventa por cento dos comentários referem que meu trabalho provoca sorrisos e encanta. É um feedback fantástico, não poderia esperar nada melhor.

 

Em seu blogue encontramos uma espécie de “mundo para as Marias” – como surgiu esse universo paralelo?

Como disse anteriormente a primeira Maria surgiu, em 2010 em uma luta pela vida de uma árvore, de uma calçada do bairro onde moro. Com o tempo foram se engajando em outros assuntos da vida, da cidade, do contexto. “O mundo das Marias” contêm marcas, não necessariamente biográficas, mas muito pessoais, tento dar a elas a individualidade de um personagem literário, mas nem sempre consigo. Minha preocupação é que elas sejam lúdicas, coloridas, poéticas, leves e brincalhonas, que tenham personalidades que saibam lidar com os eventos, com suas dores e alegrias e que provoquem em quem as conhece a lembrança da leveza brincalhona das crianças.

 

Como é o seu dia a dia criativo?

Cada dia para mim é diferente, não tenho uma rotina rígida. Mas há algumas constantes. Cafezinho, leitura de paginas do livro que estiver lendo no momento, passeios com o cachorro, necessito de silencio e concentração. Um trabalho de colagem fica por dias, na minha cabeça, faço anotações, escolho cores e texturas, às vezes faço pesquisa relativa ao tema. Importante no caso de um trabalho criativo e dinâmico é preservar a capacidade de admiração quem olha. Eu pratico e exercito muito o meu “olho de menina” e o importante não ter acanhamento. Assim a beleza e a inspiração podem estar em qualquer lugar.

Vale ainda lembrar que na colagem se lida muito com a casualidade e eu prezo muito isso. É uma técnica espontânea, há muitas coincidências e acasos e acidentes, com alguma frequência. Um recorte que se move sobre a folha, ou o modo cai, os retalhos que seriam descartados, pode mudar todo um trabalho.

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