sexta-feira, 27 de junho de 2014

Cafeína na Veia | Entrevista

]luciana, contos do poente

 

 

De palavras. Luciana é feita de palavras. Rita é feita de palavras. Com palavras fazem. Fazem histórias, fazem personagens, leitores fazem. De desenhos e cores é feita Joana. Com desenhos e cores faz viagens, faz viajores. Criam juntas, a tríade, um universo. Feminino universo.

 

Feminino? O que eu estou dizendo? Feminino e masculino compõem os versos que unem o universo – verso uno: avesso à cisão, uno e simples e complexo. Como as linhas delas e as entrelinhas delas – com elos entre desenhos e palavras... Nos contos, sonhos, memórias, fantasias se cruzam, se dissipam, se reacendem. Uma mulher, um homem, uma menina, outra mulher, outra menina, encontros, histórias...

Os textos e ilustrações (que também são textos), os textos e ilustrações deste livro estão vivos. Os bons textos são vivos. E livres. Sobrevivem ao tempo e transcendem distâncias. São livres, os livros. E dos leitores, os livros são asas.

 

Boa viagem a todos, sem mais bagagem que palavra e silêncio...

Por Henrique Beltrão

 

 

“A rua a recebe sem estranheza nem alegria, é mais uma na rua ensolarada, os transeuntes não sabem que ela tem um encontro, o asfalto não sabe, nem mesmo o sol que lá de cima parece tudo conhecer como um olho esfuziante, nem o sol sabe: ela tem um encontro. Os passos são ágeis, a idade verdadeira dá lugar à idade do passo de quem vai a um encontro. Sabe que está atrasada, mas não se apressa, não é preciso suar por um atraso de quarenta e nove anos. O seu sorriso, se alguém reparasse bem, bem serviria para um retrato de monalisa. Ela tem um segredo, ela tem um encontro.” — texto extraídos de Pérolas, escrito por Luciana Nepomuceno. Contos do Poente, 2013

 

Quando você soube que queria se escritora?

— eu acho que nunca soube. Não sei ainda se quero. Escrever não é uma opção ou escolha, é algo que faço, que me ajuda a existir. E, vez ou outra, me dá prazer. O caso do livro, escrevê-lo foi uma boa desculpa para estar mais próxima de pessoas admiráveis por quem tenho enorme bem querer.

 

De que maneira você descreveria o processo de escrita do seu livro?

— eu geralmente “vejo” frases na minha cabeça. E as burilo até ficarem do jeitinho que gosto, com alguma sonoridade. Sem escrever, só por dentro. Vou testando palavras. Quando estou satisfeita com a frase,  fico pensando onde ela poderia estar. Em que história ela poderia existir. Aí vou criando cenário praquela frase existir. Às vezes, ironicamente, na revisão do texto, a frase virou excesso e é cortada.

Esse processo é comum para os textos no blog, cartas pra amigos e também esteve presente na escrita do livro.

 

O que influencia a sua maneira de escrever? 

— os autores que li. As coisas que vejo na rua. As boas conversas no bar. A necessidade de dizer algo do que me é em vazios. E o cheiro do mar.

 

Como foi escrever um livro?

— foi uma festa. Ele foi forjado em encontros, cumplicidade e beleza. Serei sempre grata à Joana que teve a idéia de fazer o livro e à Rita por ser co-autora, amiga generosa, cúmplice na escrita e trabalhadora incansável. E foi uma surpresa reler os contos todos e achar que sim, alguém poderia gostar de tê-los na estante.

 

Qual foi a parte mais difícil de escrever um livro?

— dois momentos bem complicados: a) Começar. Acreditar que alguém poderia desejar lê-lo e b) depois de terminado, entregar os contos pra revisão. Aceitar sugestões, mexer ou cortar partes do texto. É difícil entender que já não é só meu, que outras pessoas vão ler e interpretar – algumas vezes de forma distinta do sentido que eu pensei dar.

 

O livro pra você é um objeto em primeira, segunda ou terceira pessoa?

— Flaubert disse: “Madame Bovary sou eu”. Acho que o que fazemos nos constrói  e, ao mesmo tempo, o que somos constrói o que fazemos e como fazemos.

 

Você tem um blogue. A voz a escrever para o livro é a mesma?

acho que a diferença mais significativa entre escrever pro blog e escrever o livro foi o artesanato embutido no aprimoramento do texto. Os posts dos blogs vão mais crus, menos trabalhados, com pequenos erros que, de certa forma, o enriquecem. O livro demanda um trabalho diferente, um olhar mais acurado. A beleza do post no blog é dada, em grande parte, pela sua fugacidade. O livro é o inverso, ele é (pra mim) mais interessante quando parece criar raiz nas estantes.

 

Quem é a pessoa do livro?

— difícil responder. No caso desse livro, onde foram tantas mãos e olhos e trocas, acho que a narrativa é conduzida não por uma pessoa, mas por emoções ou vivências que ganham corpo e voz temporários e que podem ser identificados e tocar quem (se) encontra (n)o livro.

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