segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

DAS PRATELEIRAS PARA UMA INFANCIA PERDIDA

Por Tatiana Kielberman

 

catarina 2

 

 

Fui uma criança triste. Solitária... que vivia às voltas com meus pensamentos angustiantes de garota... Hoje, percebo o quanto não me sabia em mim – o que de certo modo foi bastante proveitoso, pois me possibilitou as infinitas descobertas que vieram anos depois.

 

Mas, desde o princípio, lembro ter possuído uma doce companhia que nunca me recusou abrigo: os livros... Não foram poucos os instantes nos quais a leitura conseguiu preencher minha alma — encolhida... vazia.... só. Ainda que a voz dos livros fosse —por tantas vezes — silenciosa, eles conversavam comigo durante a infância toda.

 

Em sua maioria, eu os ganhei de presente dos meus tios-padrinhos queridos... que pretendiam incentivar a prática da leitura, fazendo questão de preencher minhas estantes com múltiplas coleções — que variavam desde a literatura primária direcionada a crianças, à algo mais adulto ou infanto-juvenil. Nunca me presenteavam com um livro só: eram sempre dezenas deles, de um colorido sem igual.

 

Alguns títulos ainda são presença viva em minha memória: “Moby Dick”, “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, “Pollyanna”, “Tati, a garota”, “O Apanhador no Campo de Centeio”, “Rosalinda”, entre tantos outros que eu poderia citar aqui...

 

Há também os autores consagrados, que inevitavelmente permeiam a lembrança quando retomo os tempos de menina: Tatiana Belinky, Monteiro Lobato, Ana Maria Machado, Eva Furnari, Maurício de Souza, Ziraldo, Ruth Rocha... isso sem falar nos clássicos contos de Andersen e dos Irmãos Grimm, que também cerceiam meu ímpeto literário até hoje.

 

Posso gritar aos quatro ventos que, se houve certa espécie de recompensa na vida até os meus onze anos de idade, ela se deve muito à leitura... aos livros que degustei, em casa e nas livrarias: foram, sem dúvida, o meu melhor entretenimento. Minha maior paz. Meu motivo para acreditar num possível dia seguinte...

 

Tenho consciência do quanto devo me considerar sortuda, afinal, naquela época não havia computadores, nem smartphones. A tecnologia não era disseminada como é hoje e, portanto, o contato com a leitura conseguia se demorar um pouco mais.

 

Era permitido sorver as histórias ao máximo e praticamente vivenciá-las, pois cada obra atuava como um espelho do nosso mundo ideal.

 

É realmente uma pena que — atualmente — o mundo globalizado tenha banido tal graça da vida das crianças. Formam-se jovens evoluídos tecnologicamente, mas poucos deles têm o real prazer de pegar um livro em mãos e devorá-lo por horas, sem a necessidade de se distraírem com o celular ou com o notebook.

 

São tempos estranhos estes que vivemos, mas ainda tenho a esperança de que a leitura possa salvar outras infâncias por aí, do mesmo modo como salvou a minha...

domingo, 15 de dezembro de 2013

Plural | Se eVa ofereceu a MAÇÃ…

 

Nesse volume, o universo feminino se desenha de maneira ousada, provocativa
nas “vozes” nada silenciosas de nossos autores…

 

Boa Leitura!

 

 

revista plural - volume cinco

 

se eVa ofereceu a maçã
Ingrid Caldas

 

Poeta: substantivo feminino
Dalila Teles Veras

 

 

Crônicas
Catarina voltou a escrever

Lunna Guedes

 

Se Eva ofereceu a maçã
Veronice Ayala

 

As muitas Evas que existem em nós
Tatiana Kielberman

 

Personagem
Sylvia Plath

 

 

Se preferir, leia no formato de revista on line no link abaixo

 

 

domingo, 8 de dezembro de 2013

Poeta, substantivo feminino?

Por Dalila Teles Veras

 

poeta, substantivo feminino

 

 

A polêmica sobre a utilização do vocábulo poeta para designar a mulher que escreve poemas, vem crescendo na mesma medida em que essa tendência torna-se cada vez mais visível nos meios de comunicação. Entre as próprias escritoras que demonstram preferir o termo poeta em lugar de poetisa e as publicações especializadas, colocam-se os gramáticos e puristas da língua alimentando o bate-boca, não admitindo aquilo que, para eles, significa uma verdadeira agressão ao vernáculo.

 

Quando comecei a garatujar poemas, sem mesmo desconfiar da possibilidade desse tipo de discussão, já rejeitava intimamente a palavra poetisa. O termo soava-me como algo etéreo, passível de não ser levado a sério dentro do ofício da poesia. Parecia-me que a palavra poetisa melhor se aplicaria à mulher do poeta ou talvez àquela que declama poesia, e não àquela que faz poesia para valer.

 

Mais tarde, em contato com as mulheres que faziam poesia, foi possível verificar que elas próprias também se auto-proclamavam poetas. Convenci-me de vez da validade da proposta, através da leitura de Cecília Meireles que, no poema Motivo, dizia: “eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa/Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta”.

 

Em um artigo publicado no jornal O Pão, de Fortaleza, o escritor Sânzio de Azevedo, discutia o assunto e, curiosamente, também apontava o poema Motivo, contra-argumentando, no entanto, que a própria Cecília, apesar de ter admitido ser poeta e não poetisa, teria dito, de outra feita, em entrevista ao escritor Edigar de Alencar que: “eu sou um poeta elegíaco!”. Ciosa, naturalmente, de não ferir a gramática, usou um no lugar de uma poeta.

 

A questão é antiga e não se restringe ao Brasil. Na década de 50, o crítico português, João Gaspar Simões, em prefácio à Antologia das Mulheres Poetas Portuguesas, aponta: “Não há poetisas e poetas, todos os que escrevem versos no plano do “exercício espiritual” são dignos de um mesmo tratamento. Aboliu-se a distinção de sexos em literatura”.

 

O problema maior, no entanto, não reside propriamente na utilização ou não do vocábulo masculino. A ausência de estudos sérios e aprofundados sobre a poesia feita por mulheres no Brasil, ou, ao menos, uma antologia abrangente reunindo esses trabalhos, pode ser uma pista do porquê da palavra poetisa ser rejeitada.

 

Nos compêndios da história da literatura brasileira a produção literária feminina tem sido encarada como um produto menor. Com exceção de Cecília Meireles, pouquíssima linhas são utilizadas para os verbetes de Gilka Machado, Auta de Souza, Francisca Júlia, Lupe Cotrim Garaude, Henriqueta Lisboa, Stella Leonardos, sem falar de Colombina e Cora Coralina, as mais marginais de todas elas, que nem chegam a ser citadas. Também as contemporâneas Hilda Hilst, Orides Fontela, Ana Cristina César, Yêda Schmaltz, Maria José Giglio, Renata Pallotini, Marly de Oliveira, Adélia Prado, Lara de Lemos, Olga Savary, Neide Archanjo, Eunice Arruda, Ilka Brunilde Laurito, Idelma Ribeiro de Faria e tantas e tantas outras, ainda não contam com a divulgação e os estudos críticos que suas obras merecem.

 

Polêmicas à parte, a mulher poetisa ou poeta, assim como os homens poetas, precisa mesmo é de leitores, de editores e críticos que valorizem suas respectivas obras. O resto é simples acessório.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Personagem | Sylvia Plath

 

A poesia que sinto é uma disciplina tirânica, você tem que ir tão longe, tão rápido, em um espaço tão pequeno, que você apenas tem que desviar de todos os periféricos. E eu sinto falta deles! Eu sou uma mulher, eu gosto de curiosidades, e eu acho que num romance posso obter mais da vida. Talvez não seja uma vida tão intensa, mas certamente mais da vida” –, escreveu Sylvia Pltah em seu diário.

 

 

 

plath

 

 

 

A morte, quase sempre, é o elemento definitivo na vida de certos escritores, como o foi na vida de Sylvia Plath que perdeu seu pai, o herói Otto Plath quando tinha oito anos – ela jamais se recuperou dessa perda. Nadou mar a dentro – até onde pode, mas o mar recusou seu corpo, sua metáfora. Devolvendo-a para a praia… Mas a menina já não era mais a mesma. Ninguém encara a morte de frente e continua sendo o mesmo. Sylvia passou a ser alguém completamente fascinado pela morte.

 

Poucos sabiam. Conhecê-la não era uma tarefa fácil. Quem percebia sua bela figura atravessando ruas, dobrando esquinas – entrando e saindo de casa não poderia imaginar, seque supor que as tempestades que pesavam sob o semblante amável da jovem de gestos pequenos e movimentos poucos…

 

Sylvia nasceu em Boston em 1932 – trabalhou na revista Mademoiselle em Nova York e pouco depois mudou-se para Inglaterra, indo estudar em Cambridge. Sylvia estudava, escrevia, publicava seus artigos em revistas e jornais e desde a infância escrevia em seus diários chamados por ela de “mar de sargaço”…

 

Casada com o garanhão Ted Hughes com quem teve dois filhos – o cansaço passa a fazer parte de sua anatomia tanto quanto a falta de tempo. Sua vida vai num crescente infernal e as tentativas de suicídio se multiplicam. Neurótica, intempestiva – ela criava enquanto destruía a si mesma com a mesma fúria que parecia ser uma espécie de argumento tão necessário quanto respirar.

 

Ted Hughes acabou deixando Sylvia para viver com a amiga Assia Gutman – mas a separação nunca foi total. Ela continuou a viver pra ele – frágil, o abalo a levaria ao fim, mas enquanto a última página não era virada, Sylvia escrevia Ariel, lançado postumamente. Era uma narrativa baseada em seu estado de espírito. Sua crescente solidão, seu estado frágil de saúde e sua condição inadequada de existir em meio as obrigações cotidianas de uma dona de casa separada.

 

A última página é escrita na madrugada do dia 11 de fevereiro de 1963 quando Sylvia prepara o pão e o leite das crianças. Agasalhando-as. O último olhar confessa a despedida como se fosse um ensaio repetido dúzias de vezes sem a certeza que agora permeia sua pele. Os beija e veda a porta do quarto. Vai até a cozinha. Limpa a mesa, a pia e já sem tristeza em sua pele, como se estivesse finalmente prestes a libertar-se dos pesos que incorrem sua matéria gasta, abre o forno e deita a cabeça dentro. Ela se dá asas… Abraça a morte – seu fim… As palavras, contudo – sobrevivem, como de costume.

 

 

“Esses meus novos poemas têm uma coisa em comum. Foram todos escritos em torno das quatro da manhã – naquela hora ainda azul e quase eterna, antes do choro do bebê, antes do tilintar musical do leiteiro arrumando suas garrafas”. – escreveu Sylvia.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Catarina voltou a escrever,

Por Lunna Guedes

 

catarina voltou a escrever

 

 

Eu tinha quase vinte – ela vinte e seis. Eu era recém chegada e ela parecia estar lá desde sempre. Tinha olhos cor de caramelo e os meus eram cor de café expresso. Sentava-se na primeira fileira de cadeiras e eu fui logo sentar-me mais ao fundo... Não nos falamos nas primeiras vezes, apenas nos olhamos rapidamente – foi como tropeçar. Ela tinha marcas na pele. Um dragão e uma meia lua. Minguante ou Crescente - não me lembro, mas também tanto faz. Eu tinha apenas uma cicatriz branca dos meus tempos de menina. Joelho rasgado. Sangue a escorrer. Raiva a gritar nos punhos fechados...

 

Eu ouvia Led Zepelim e ela Pearl Jam. Ela se vestia de preto e eu naqueles dias só queria saber do vermelho. Eu era febril – ela delirava... Não lembro qual das duas falou primeiro. Lembro apenas dos diálogos insanos que tecemos dentro das tardes alaranjadas. Ela não tinha em suas palavras uma só gota de realidade. Era muito assustador, mas completamente saboroso...

 

Ela era uma menina-mulher-figura-estranha-complexa-doida-que-adorava-lacan – cursou apenas o primeiro ano de psicologia. Surtou e acabou internada. Não me deixaram vê-la – afinal, eu era uma simples estranha e nada mais. A estranha que ficou com um caderno de notas onde ela escreveu a mesma palavra dúzia de vezes: "desire".

 

Eu era a estranha que se apresentou a ela com um sorriso bobo no rosto e ao dizer seu nome foi como ouvir um eco.

 

 

Catarina...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

E se Eva ofereceu a maçã,

Por Veronice Ayala

 

 

…tenho 59 anos. Sou aposentada do Tribunal de Justiça. Moro em Greenwich/Connecticut. Tenho poesias, contos e crônicas. e 2 livros em andamento há pelo menos 4/5 anos. Uau! Sou viúva desde que tinha 26 anos de idade e alguns amores mal sucedidos no meu histórico pessoal. Duas filhas e um neto adolescente. Sou feliz!

 

 

O mínimo que posso dizer é que se a eva ofereceu a maçã é porque pensa que eu posso aceitar. A eva me tem nas mãos. Conhece o meu coração e os sentimentos que estão dentro dele. Conhece bem o que sinto, porque sinto, e a que horas sinto. E mais, conhece todos os meus motivos. As minhas causas.Para sentir esses sentimentos todos. Daí então conhece meu presente. Está de olho em tudo ao meu redor. E se o presente é o resultado do passado, também conhece meu passado. E com base nisso pode imaginar por quais caminhos o meu futuro vai andar. O que tenho nas mãos? A eva sabe, a eva vê, a eva advinha. Vê minhas roupas penduradas no cabide. A mala guardada atrás da porta. A eva vê as minhas rugas. Sabe onde estão os meus potes de disfarce. A eva leu os meus livros que nunca foram escritos. Porque ela sabe o que penso. Ela não lê pensamentos, mas, eu sempre falo alto comigo mesma. Eva tem bons ouvidos. É jovem. Esperta. Inteligente e sagaz. O que não escuta advinha pelos gestos, fungos, suspiros e devaneios de loucura. Vê quando tomo gotinhas homeopáticas. Pequenas doses de alívio nos momentos de crise.

 

Ainda mais do que tudo isso, a Eva sabe que gosto de tudo organizado e limpo. Não gosto do feio. Só do que é belo. Tenho pavor de doenças. Gatos arrepiados. Trovões noturnos. Sapato virado. Tapete enrolado sem uso. Pia cheia de louças. Comida requentada. Gente que fala palavrão. Porque palavrão é feio. Palavrão é construído com coisas que devem ficar escondidas. Nem gosto de pensar nelas. Eva me conhece e sabe que de repente posso aceitar esse convite que ela me faz. E por isso me faz. Mas eu me previno desse deslize com minhas orações matinais. E também com as noturnas.Com meu pensamento positivo que desconsidera as sextas-feiras treze, a previsão astrológica e a numerologia. Mesmo asssim, nunca se sabe o que ela pode me soprar nos ouvidos enquanto estou dormindo. Tenho segredos que eva não sabe mas desconfia. Por isso sempre joga verde para colher maduro. Está sempre me espreitando para descobrir como pode me convencer.

 

Se eva me ofereceu a maçã é porque sabe que posso aceitar de primeira. Ou então pouco tempo depois. Posso congelar a maçã no freezer da minha geladeira. Lá onde tenho coisas que vou colocar no lixo sem nunca experimentar. Posso também nunca aceitar. Mas a eva sabe que eu posso aceitar. Por isso me oferece a maçã. Vermelha doce e madura. Para eu dar aquela mordida e ouvir o crec. Depois olhar para e ver a marca dos dentes. E se não for doce e gostosa como parecia? Não vou ter tempo de pensar muito porque a maçã logo escurece. Oxida com o ar. Com a saliva. Com o que eu não sei. Mas sei que a fruta tão atraente perde a beleza tão logo recebe a mordida. O desejo morre tão depressa. O prazer do crec foi bom mas se foi tão rápido.

Fica a dúvida. Eu me benzo. A eva cruza os dedos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

As muitas Evas que vivem em nós,

Por Tatiana Kielberman

 

 

maçã

 

 

 

Desde bem pequenos, somos acostumados a ouvir diversas vezes a história da criação do mundo e, consequentemente, de Adão e Eva.

Seja da boca de nossas mães e avós ou, até mesmo, na escola, aprendemos que a mulher foi feita da costela do homem e, pouco depois, ofereceu a maçã proibida a Adão no paraíso, o que teoricamente daria origem a todas as outras imperfeições do homem.

Trata-se de algo que faria bastante sentido se nos detivéssemos apenas ao pensamento pragmatista que nossos antepassados buscaram nos transmitir: nossos atos sempre irão gerar consequências, em menor ou maior escala.

Porém, cabe ressaltar que, em certas vezes, alguns indivíduos acabam pagando o preço pelo “erro” de outros. É muito fácil subverter os fatos e inverter papeis nas mais diferenciadas situações para que algo, geralmente de interesse de uma das partes, prevaleça.

Penso, assim, que atribuir a responsabilidade pelos pecados nossos de cada dia a uma única mulher, no caso, Eva, seria simplificar demais a realidade que, a meu ver, é bastante complexa por si só.

Há muitas Evas presentes em todos nós, seja na lenda respectiva à beleza ou, inclusive, ao próprio erro. Nesse sentido, entram a índole da pessoa, a criação familiar, os antecedentes e, até mesmo, certo lado espiritual diante do qual me sinto imatura e cujos aprofundamento desconheço – mas acredito.

Somos errantes desde que o mundo é mundo. E não, a culpa não é de Eva, de Deus ou de qualquer outra base fundamentadora de ideias.

A culpa é mesmo desta raça humana – que adora colocar a responsabilidade no primeiro que lhe seja conveniente.

 

 

 

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Tatiana Kielberman é psicóloga, escritora e web publisher, não necessariamente nessa ordem.

domingo, 1 de dezembro de 2013

…se eVa ofereceu a maçã…

Por Ingrid Caldas

 

 

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Caríssimo leitor,

Hoje não vou dizer de cheiros, cores e frutos.
Vou dizer de tempo, prazeres, pecados de vida e de viver... Desde que o mundo é mundo, lemos sobre a Humanidade e sua evolução. Sabemos e percebemos muito pelo que lemos, pela visão de outros.

Eva “trouxe” o pecado com a maçã, e dela vieram todos os infortúnios de vida e viver. Afora crenças religiosas, a maçã é a tentação? – é o atalho para o prazer?

Vimos a mulher como reprodutora , que gera a prole e não há tanto tempo, o homem a responsabilizava se o rebento não fosse um filho homem. Aquele que seria o herdeiro do nome e dos bens. Em algumas regiões: bebês femininos eram mortos. Mulheres eram criadas para servir ao homem. Sequer estudavam , para não ter o “conhecimento”.

 

Ficavam inteiramente dependentes dos pais e depois do marido. E a maçã?

 

Em alguns anos mulheres à frente do seu tempo, foram se “mexendo” -, se abrindo ao novo. Afinal, ao cuidar de casa e filhos, com o marido quase sempre chegando tarde - , pensar em um tempo só dela começava a fazer sentido. Sim, os maridos chegavam tarde! Tinham amantes , prostitutas - ou não. “Teúdas e manteúdas” com quem se saciavam de desejos que a esposa e mãe nem imaginava e jamais desfrutaria. E a maçã? 

Foi uma caminhada árdua, demorada, onde os homens também lutaram para mantê-las no anonimato. Mas, a maçã tem cor vibrante, é doce e sua árvore, plena de frutos lindos de se ver! E, finalmente, a “liberdade” foi alcançada. No afã desta dita liberdade, muito se cometeu e se excedeu. A novidade fez os olhos brilharem, o corpo fremir em um desejo contido de décadas – quiçá de centenas de anos, de vidas tolhidas em sua essência e potencial. Lambe-se a maçã!

Na corrida de recuperação do tempo perdido, interpretações errôneas de conceitos, de atitudes e sentimentos, se atropelaram. A mulher que ontem se escondia, seja no lar, seja em roupas escuras e recatadas, na ignorância do mundo ao seu redor, explode em opiniões, expostas na mídia, cinema, livros e chega ao mundo corporativo. Com todo este caminhar, vem os valores duvidosos. A aparência surge com exigências absurdas e escandalosas, mulheres plenas de ossos, sustentando um orgulho por vezes doente, em que as curvas de tempos idos foram digeridas com alimentos industrializados e fast foods. Cheira-se a maçã!

 

Junto com a liberdade de expressão, o poder do voto e o respeito pela opinião feminina, vem os desejos e a curiosidade –, pelos pecados do corpo. Pelo prazer inimaginável, que tanto cativava os esposos de décadas passadas . E um turbulento movimento se faz, com ondas de sexo livre, de libertinagem incontida, como se, por amor ou desamor, a busca ainda não encontrasse rumo certo. Temas como aborto, violência doméstica, homossexualismo, são discutidos a céu aberto. Muitas mães abandonadas pelos companheiros, seguem na sobrevivência com sua família. E avança no respeito ao outro ou outra, uma luta incessante... Mordeu-se a maçã!

 

E o espaço feminino é conquistado, à duras penas, e, com o sacrifício de muitas e de muitos, vemos um mundo novo. Mas, o tempo há tanto almejado, traz insegurança. Homens perdidos na sua função, na sua masculinidade tão atingida e questionada. Sim, os homens perderam-se, e já não sabem se o cavalheirismo é bom ou ruim, ninguém mais quer compromisso. Ouço mulheres reclamarem por afeto, amor verdadeiro, pelo sentimento perdido – , e homens lamentando o mesmo. Engasgou-se com a maçã? 

 

Hoje, se olharmos para trás, em seu contexto histórico, estas conquistas foram importantes e, em sua maioria, benéficas não só para a maioria das mulheres, como para os homens. Hoje são tantas as mulheres a ocupar o “poder” – e, não falo apenas do poder subjetivo e sim o poder de ser mulher. Do outro poder também se fala – afinal, é um fato alardeado pela imprensa constantemente, inclusive no Brasil. A tecnologia avança rapidamente trazendo também uma longevidade que nem se pensava. Vida saudável, atividades físicas, doenças controladas. Mas o tempo está tão mais curto... Será que o mundo gira mais rápido? Será que o relógio acelerou os ponteiros? A vida que passava devagar hoje grita por agilidade e intensidade. A mulher se divide entre a família, as que por ela optaram, e o trabalho, o sucesso profissional. O companheiro partilha das tarefas do lar, em um equilíbrio saudável para alguns casais. Enfim, são conquistas, são lutas, e o respeito almejado vislumbrado. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Ainda vemos e ouvimos situações incontestavelmente absurdas praticadas contra a mulher. Um futuro que só a nós cabe traçar e com responsabilidade, fazer com que o olhar do outro nos veja como realmente somos. Veja-nos com as ambições e realizações, mas como mulheres, que geram vidas, que sustentam afetivamente a família, que são carinho e carências... E a maçã?...

 

Vamos encará-la como sendo o lado bom. O perfume, a cor, o sabor, que dão calor à vida!Que nos faz querer mais e mais, de nós mesmos e do outro. Que nos faz palavras numa folha por alguns segundos para depois ser um olhar para a vida pulsante, ativa – uma bela mordida prazerosa. 

 

Que a leitura que se segue os deleite, plena de cores, sabores e perfumes...

Grande abraço,

 

 

 

Sou tantas em uma!..
as vezes me faz rir
as vezes me faz pensar..

Não sou de palavras
não sou poeta..
apenas me sinto
e me leio..

Tenho tantas vidas em mim..
tantas vontades!..
anseios e talvez ilusões..

Sou mulher, sou menina
sou entregue, sou vontade..
tenho que ir,
e quero me deixar levar..

Paradoxos de uma vida!..
minha vida..
que segue!..

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Plural – o outro, o mesmo | 2013

 
 
 
 

Nessa Edição

 
Flash Back por Luciana Nepomuceno
 
 
 
 
Entrevista
Hoje é Dia de Marias

Com a artista Plástica Maria Cininha
 
 
Questão de Tonalidade
Por Jane Lauxen
 
 
Personagem
Borges, o mesmo, o outro!
Por Lunna Guedes
 
 
 
 
 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Borges, o outro – o mesmo!

 

Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi
teve origem em minha emoção
” 

— Jorge Luis Borges—


 

borges

 

 

Enquanto a chuva caí lá fora leio Borges —  esse outro, o mesmo. Esse homem, o poeta.

O livro “poesia” ocupa os olhos, a pele, a alma. O sentir. Vai me desabrigando —  o cenário esbranquiçado da Paulicéia de Mário vai ficando distante — de repente, sou ocupada por outros elementos: a Praça do Retiro, figura presente nos versos do poeta que passava por ali em suas caminhadas a caminho do Café Tortoni que ainda hoje tem diversas citações do poeta e sua mesa está lá, em compasso de espera – como se o homem/poeta fosse aparecer a qualquer momento.

A Buenos Aires de Borges, contudo, é outra - como ele mesmo faz questão de dizer em seus versos. Talvez seja uma cidade inventada pelos olhos do homem que com o passar dos dias se recusou a ver o que não era de seu agrado.

 

Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires.
Recordo o ruído de ferros do portão gradeado.
Recordo os jasmins e o algibe, coisas da nostalgia.(...)
Recordo o tempo generoso, as pessoas que chegavam sem
avisar.(...)
Recordo o que vi e o que me contaram meus pais. (...)
Recordo as carroças do interior no pó do Once.
Recordo o Almacén de La Figura na rua de Tucumán.
Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho.
Lamentará as torres de cimento e o talado obelisco.

 

Com 15 anos, Borges foi morar na Europa - onde ficou por sete anos, tempo suficiente, para, ao retornar a sua cidade natal - encontrar uma nova Buenos Aires. A cidade havia crescido rapidamente: as velhas casas substituídas por prédios, as avenidas aumentaram. Surgiram bairros populares formando-se assim, a metrópole moderna que não tem espaço na poesia de Borges que exibe ao nosso olhar uma Buenos Aires de alta emoção estética vinda dos bairros humildes. É tudo muito escuro e denso. Nostálgico e metafísico. Fica fácil perceber que Buenos Aires para ele, mais que uma cidade é um país inteiro.

 

"Buenos Aires sempre foi uma cidade múltipla, feita de retalhos de povos transformados em subúrbios - daí cosmopolita” – explicou Borges.

 

Quando Borges era menino, Palermo, bairro onde viveu era um lugar calmo, silencioso e arborizado. Ficava no limite da cidade e o campo. Era um subúrbio distante e perigoso à noite, ou segundo o poeta - "era um sórdido arrabalde norte da cidade". Palermo foi imortalizada em muitos contos e poemas do autor.

Sua obra desenhou uma espécie de cidade imaginária, erguida a partir da Buenos Aires vivida e lembrada. Para sabê-la é preciso mergulhar nas linhas do homem/poeta que nos apresenta pequenos pedaços da cidade que ele inventou. Em alguns momentos tudo parece uma pintura a nos causar sensações e percepções acerca de um cotidiano que não nos pertence e assim está lá a nos tomar de assalto.

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo nasceu na Rua Tucumã, bem ao centro de Buenos Aires no dia 24 de agosto de 1899, na casa de seu avô paterno. Porém, foi em Palermo, casa onde morava com os pais, que viveu sua infância e ali com apenas 6 anos decidiu que queria ser escritor. Menino com grandes óculos passou maior parte do seu tempo na biblioteca do pai, como ele mesmo afirma em um de seus muitos ensaios: “Se tivesse de indicar o evento principal de minha vida, diria que é a biblioteca de meu pai. Na realidade creio nunca ter saído dessa biblioteca”.

Aos oito anos rabiscou suas linhas primeiras – escrevendo o conto “la visera fatal”. Oitenta anos mais tarde. Cego. Velho. Com o peso da idade sob os ombros. Esgotado – seguia ditando palavras para a mãe, à secretaria e depois para Maria Kodama com quem se casou nos últimos instantes de vida.

Borges deixou de ser um leitor em 1955 – mas preservou o olhar estreito. Nada do que havia conquistado se perdeu. As palavras seguiam em sua mente. Sua genialidade permaneceu intacta até o último segundo “quando algo te acaba, precisas saber como iniciar” – e ele soube. Voltando aos estudos – reinventando a si mesmo. O homem alcançou um novo estilo.

Havia muito de outros poetas em sua escrita. Havia muito de si – o outro, o mesmo. Borges acrescentou elementos novos a uma escrita cada vez melhor. Temas simples como o subúrbio portenho ou o tango ganharam perspectivas inéditas através da alma que parecia preservar como herança tudo que o homem havia visto durante o tempo em que seus olhos colhiam imagens. O homem morreu sem receber muitos agrados. Sem ser devidamente aclamado. Morreu em 1986 sem que o soubessem de fato modernista ou poeta de vanguarda.

Morreu dizendo ao mundo que era um homem que pouco tinha lido e quando o fez, leu sempre os mesmos livros. Morreu dizendo ter escrito apenas cinco ou talvez seis livros. Dante, Shakespeare e Vírgilio – homens dotados de boas palavras.

A consagração do poeta veio em 1935 – mas ele não esperava pelo sucesso. Queria a escuridão. O silêncio – a quietude. A sua tão aclamada solidão – o único deus para quem rezou seguidas vezes ao longo de toda a sua vida.

Borges esperava morrer no anonimato. Sem que dessem por ele. Não foi assim… O ápice veio com Aleph que para o poeta era uma espécie de bibliografia do homem que chegou a anunciar a data de seu fim. O homem cometeria suicídio anunciou uma carta publicada num jornal argentino. Mas a data passou e o homem lá permaneceu, segundo ele mesmo disse “por covardia”. Não foi além, preferiu esperar pelo fim como fazemos todos.

O poeta seguiu com suas linhas – sempre perfeitas, concisas e mágicas – deixando o homem liberto da velhice e até mesmo da cegueira.

 

 

“Aqui sob os epitáfios e as cruzes não há quase nada. Aqui não estarei eu.
Estarão meu cabelo e minhas unhas, que não saberão que o resto morreu, e seguirão crescendo e serão pó”
— Jorge Luis Borges —

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Questão de tonalidade

Por Jana Lauxen

 

O problema era a cor do rapaz.
Não dava para tolerar!
Não naquela família, de casta tão legítima.
Nunca, nem uma única vez desde sua origem, algum membro do clã Silva e Souza envolveu-se com alguém daquela coloração.
E agora a filha caçula e mais problemática vinha com essa novidade: namorar um sujeito de cor.
Logo daquela cor!
O pai, quando conheceu o rapaz, foi incapaz de emitir uma palavra.
Passou a noite inteira emburrado, resmungando, os braços cruzados a encarar o dito-cujo.
A mãe até tentou fingir simpatia, pelo menos educação, mas tudo que demonstrou com seus trejeitos e expressões foi nojo.
O irmão mais velho negou-se a dar a mão em cumprimento ao rapaz, e saiu batendo porta, amaldiçoando aquela laia imunda.
Até a empregada manteve-se cuidadosa, para não encostar-se ao garoto enquanto servia o jantar.
Quando o menino foi embora, os pais sentaram para conversar com a filha:
— Não pode.
— Não dá.
— Por quê?
— Você chegou a reparar na cor dele?
— O que é que tem?
— Como assim, o que é que tem? Tem que a cor dele é muito diferente da sua, e todo mundo sabe que pessoas da raça dele não podem, não devem e não precisam se misturar com pessoas da nossa raça.
A filha começou a chorar.
O que iria fazer, se não podia ver um alemão bem branco e bem rosado que gamava?

 


 

Jana Lauxen é escritora, autora do livro Uma Carta por Benjamin (Ed. Multifoco, 2009). Colunista da revista Café Espacial, publicou pela Mojo Books a historieta Pela Honra de Meu Pai. Publicou em mais de doze coletâneas, e organizou seis em parceria com outros escritores. Foi editora da versão brasileira da revista eletrônica inglesa 3:AM Magazine, e também uma das idealizadoras do projeto
E-Blogue.com (in memorian). Atualmente trabalha na Editora Multifoco e prepara-se para lançar seu segundo livro, O Túmulo do Ladrão.

 

 

E-mail para contato: multifoco.jana@gmail.com

Site: www.janalauxen.com

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Hoje é dia de Marias

..:  E.n.t.r.e.v.i.s.t.a  :..

 

maria cininha

 

Não existe uma leitura ideológica nas colagens e desenhos de Maria Cininha, mas um reforço da postura de felicidade que se encontra nas várias condições de vida. Condições essas que se formam pelo olhar atento às reações e às transformações do corpo fantástico. Em suas obras, as bonecas sorriem, choram e podem chegar ao extremo do deboche. Os animais, também, em formas mínimas ou grotescas, demonstram uma produção de desejo por conta de um conforto íntimo com seu ambiente.

As formas vazias apresentam os vazios plurais – esses que a gente entende sem precisar de tradução. E as cores deixam seus estados populares a fim de projetarem um lugar em que o conto e o dia-a-dia se naturalizam em uma mesma paisagem.

 

marias

 

Como e quando apareceram as Marias?

Eu habito um mundo feminino e gostaria de falar dele, mas de maneira diferente. Então aos poucos fui buscando uma forma que fosse alegre, brincalhona, irreverente, colorida, poética, as vezes seria e triste, como qualquer um de  nós. Mas que sua forma literalmente fosse inusitada; não ilustração de revista feminina, e sem apelo feminista. As Marias são as meninas que moram dentro de cada mulher.

A primeira Maria surgiu, em 2010, pela luta por uma árvore, de uma calçada do bairro onde moro. Um Ipê amarelo que foi cimentada até o colo e subindo pelo seu tronco por 10 centímetro, e os sujeitos que fizeram isso ainda pintaram o cimento de verde. Naquela situação de procurar órgãos públicos, policia ambiental e até deputado nasceu a serie “Marias” meninas atenta ao que acontece ao seu redor, brincalhonas, mas que quando precisam vão à luta.

 

Como é a cidade das suas Marias?

A cidade das minhas Marias é São Paulo. A cidade onde nasci que tento achar que é dispensável, mas que esta impregnada em tudo que eu faço. Ela é o avesso do que eu espera e sonhava  dela como cidade, mas como diz a canção “o coração tem razão que a própria razão desconhece”, me rendo a ela. As Marias são  as meninas que moram que moraram e que ainda vão nascer nesta cidade. Quando elas falam de calçadas, de amores perdidos, de horário de verão, de festas, da falta de água, da chegada da primavera, do canto do sabiá, elas falam a partir de um lugar: São Paulo. Mas isso não que dizer que não seja espelho de outras tantas outras cidades do mundo.

 

Você é de São Paulo e vive em São Paulo. 

Essa cidade tem algum encanto especial pra você?

Costumo dizer que São Paulo é um amor bandido. Aquele amor a quem você entrega tudo e ele não retribuí nada. Mas, é um exagero, não é sempre assim. Eu tentei morar fora de São Paulo e depois de seis anos estava de volta, e pretendo nunca mais sair. Depois é a terra que meus avôs escolheram quando aqui chegaram, a terra que nasceram meus pais e a terra que nasceram meus filhos. A minha história esta sendo escrita aqui. Assim nesta cidade estão minhas experiências afetivas e momentos significativos da minha vida. Fora tudo isso eu tento me reconhecer aqui, no entorno material que se modifica constantemente que apaga sinais, vestígios, cria lacunas, imagens que oscilam entre a recordação e o esquecimento total. Sofro pela falta de políticas que preservem espaços históricos da cidade, porque antes de tudo preservar significa (re)apropriar-se, resgatar um sentido. Por este motivo estou de mudança para um Studio na Praça da Republica no centro de São Paulo. Uma escolha que vem da minha busca por um encontro afetivo, um olhar evocativo, sonhador, por esta cidade, “minha cidade” com sentido de “lugar de vida”.

 

Como a arte entrou em sua vida?

Eu acho que desde garota, quando o lugar que mais gostava de brincar era no barracão de ferramentas do meu pai. Mas a vida me levou para outros caminhos e durante anos fui empresaria, fiz faculdade e mestrado na maturidade, as coisas andam meio fora de hora para mim. Mas paralelo ao meu caminho profissional estava à arte. Li muito fiz curso de pintura, desenho, frequentava exposições e museus. Até que aos 46 anos resolvi fazer a Faculdade de Belas Artes de São Paulo.

O recorte e colagem vieram mais tarde. O papel sempre foi o meu suporte preferido. A tela eu descartei logo no inicio dos meus estudos de arte. Mas a colagem entrou na minha vida quando fiz a dissertação de mestrado.

Nela pesquisei criatividade e envelhecimento, mas precisamente se a criatividade diminuía com passar do tempo, ou seja, se era mais uma perda do envelhecimento. Para esta pesquisa trabalhei com obras de velhos pintores que morreram com mais de 80 anos, um deles Henry Matisse. Matisse teve um problema de saúde que o deixou nos seus últimos 14 anos de vida em uma cadeira de rodas ou uma cama, que o impedia de pintar. Ele em fez de desistir e se conformar com sua incapacidade se volta para os seus famosos recorte e colagem. Mesmo sem saber da sua história de superação, o colorido, as formas desenhadas pela tesoura de Matisse são muito fáceis de amar.

No começo fiz releituras dos recortes de Matisse, entretanto buscando minha própria voz na técnica. Procurei uma arte alegre, lúdica e colorida. Passei por varias fases: bichos, passarinhos, retratos, as Marias e outras que virão, mas sempre com o foco no lúdico.

A arte que crio me diverte me faz sorrir e por com seguinte faz o mesmo com as outras pessoas. Dos cinco anos no Flickr e nos três anos no blog, e agora no Facebook noventa por cento dos comentários referem que meu trabalho provoca sorrisos e encanta. É um feedback fantástico, não poderia esperar nada melhor.

 

Em seu blogue encontramos uma espécie de “mundo para as Marias” – como surgiu esse universo paralelo?

Como disse anteriormente a primeira Maria surgiu, em 2010 em uma luta pela vida de uma árvore, de uma calçada do bairro onde moro. Com o tempo foram se engajando em outros assuntos da vida, da cidade, do contexto. “O mundo das Marias” contêm marcas, não necessariamente biográficas, mas muito pessoais, tento dar a elas a individualidade de um personagem literário, mas nem sempre consigo. Minha preocupação é que elas sejam lúdicas, coloridas, poéticas, leves e brincalhonas, que tenham personalidades que saibam lidar com os eventos, com suas dores e alegrias e que provoquem em quem as conhece a lembrança da leveza brincalhona das crianças.

 

Como é o seu dia a dia criativo?

Cada dia para mim é diferente, não tenho uma rotina rígida. Mas há algumas constantes. Cafezinho, leitura de paginas do livro que estiver lendo no momento, passeios com o cachorro, necessito de silencio e concentração. Um trabalho de colagem fica por dias, na minha cabeça, faço anotações, escolho cores e texturas, às vezes faço pesquisa relativa ao tema. Importante no caso de um trabalho criativo e dinâmico é preservar a capacidade de admiração quem olha. Eu pratico e exercito muito o meu “olho de menina” e o importante não ter acanhamento. Assim a beleza e a inspiração podem estar em qualquer lugar.

Vale ainda lembrar que na colagem se lida muito com a casualidade e eu prezo muito isso. É uma técnica espontânea, há muitas coincidências e acasos e acidentes, com alguma frequência. Um recorte que se move sobre a folha, ou o modo cai, os retalhos que seriam descartados, pode mudar todo um trabalho.

domingo, 10 de novembro de 2013

Uma crônica verdadeira

Por André Auke

 

A verdade é uma grande mentira. Vamos aceitar esse fato. Na real, a mentira é a nossa grande amiga e companheira. Sejamos honestos pelo menos uma vez na vida.
Quantas vezes repetimos a bonita frase: “mesmo que doa, eu prefiro a verdade”?

Mentira! Mentira! Pô, você sabe disso, eu sei disso, todo mundo sabe disso. Mas, mesmo honestamente, querendo dizer a verdade, estamos sempre mentindo. É ou não é a nossa grande companheira?
É possível que nem mesmo sozinho aí, lendo essas palavras, você vai assumir a verdade. Vai como sempre, e isso é um ato natural, mentir para si mesmo. Isso não é uma crítica, somente uma constatação.
A coisa é tão celular que o estranho, o que causaria uma comoção, seria a verdade aparecer.
Talvez no decorrer dessa leitura você tenha pensado em alguns ícones, vários nomes de pessoas que para você são verdadeiras. Vou lhe dizer uma coisa: resuma sua lista, mas resuma messssmo, é capaz de sobrar apenas um. Ou nem isso.

 

Nessa altura você já está achando um absurdo o que eu estou dizendo, né?
Uma arrogância!

 

Para mim é verdade o que eu disse, mas tudo pode não passar de mentira disfarçando-se de verdade.
Ela é tão poderosa que tem a capacidade de enganar pessoas inteligentíssimas, fazendo-as acreditar que estão sendo verdadeiras consigo mesmas e com os outros. E pior, isso acontece e dá muito certo. Multidões acreditam. É sério.
Nossa grande companheira honesta, que não nos deixa na mão em nenhum momento: a mentira. Vamos parar de ser hipócritas - é possível que doa menos. Nunca fomos e nunca seremos.
Quantos trabalhos, quantas terapias, quantas observações, quantas filosofias de bar e de sala você já não fez?
E a nossa companheira continua ao nosso lado.
Tudo bem, não precisa ficar com vergonha ou nervoso. É super natural discordar do que estou falando. Eu pararia de escrever agora e apertaria o botão “DEL”, se acontecesse o contrário. Mas, graças a você, a todo mundo, inclusive eu, tenho razões para continuar.
Alguns aí, vão apelar para santos. Ok, vale tudo. E eu pergunto: Você acha mesmo que os santos não mentem?
Ai, acho que blasfemei para alguns.
Desculpa. Eu esqueci que vocês acreditam que suas religiões dizem a verdade. Foi mal.
Vamos ser mais compreensivos com ela meu povo!
Ela nunca nos trai. Está sempre a nossa disposição. Não seja um ingrato com quem é tão dedicado a vossa pessoa.
Na próxima vez que se olhar no espelho, não finja que ela não está ali, fiel, prestativa só esperando o seu olhar de compaixão e aceitação.
Eu poderia dar grandes exemplos de coisas e pessoas do mundo, mas eu e você sabemos que não vou precisar disso.
Afinal, o papo aqui é mais individual, não precisamos ir tão longe. É só observar o fluxo de seus pensamentos agora. Isso, agora.
Hum, acho que te peguei! Sinto que não preciso ir mais além. Mas não tenho como não dizer uma coisa estranha: “Acho que existe alguma verdade em tudo isso”.

Bem, o papo está bom, mas eu e a minha fiel escudeira nos despedimos. Desejamos uma boa observação do fluxo de seus pensamentos neste momento. Agora. Mas, se for mais fácil, não tem nenhum problema chegar à conclusão que tudo isso é uma grande mentira. Vai por mim, isso não seria nada estranho.

sábado, 9 de novembro de 2013

Palavras e VIDAS COSTURADAS

Por Simone Huck

 

 

A casa estava sempre cheia de linhas coloridas, moldes, panos e agulhas. Cresci vendo minha mãe costurar tecidos. Minha mãe envelheceu me vendo costurar palavras. Com agulha ou caneta, estamos sempre costurando os panos da nossa espera. Repetindo promessas e sentimentos. Vamos caseando ilusões. Diante das nossas particulares máquinas de costura, seguimos fazendo a barra do nosso tempo. Pregando o zíper da paciência ou da ausência dela. Deixando os pontos surgirem das agulhas, em eterno zigue-zague. Das várias máquinas de costura que habitavam minha infância, me lembro bem dessa que fazia zigue-zague. Ela produzia vários tipos de pontos, bastava escolher o modo mais ou menos emaranhado. Sempre preferi o que mais parecia complicado. Eu já era um arabesco e nem sabia. Um eterno marinheiro perdido entre os diversos tipos de nós e mares e ondas e gaivotas e solidão. A vida é um mar costurado. As linhas entrelaçam-se emaranhadas. Rumo ao caos de algum resto de pano. Sempre gostei de restos de pano. Minha mãe sempre gostou do resto das minhas palavras. Estamos de mãos dadas. Brindemos o resto dos panos que ainda conseguimos ser. Pendurados no eterno varal da vida. Secamos numa manhã ensolarada.

 

Ela está doente. Até onde sei, não estou doente. Ela precisará fazer uma cirurgia no fim do mês. Peguei em suas mãos e a levei ao cirurgião. Agora sou eu quem precisa protegê-la entre meus braços inquietos. Conversei com ele e só depois que autorizei, ela resolveu se deixar abrir. Invertemos os papéis. Agora sou sua mãe e ela é a minha filha. Minha filha tem sessenta anos. A mãe da minha filha tem quase quarenta. Depois que garanti que tudo ficaria bem, que eu estaria na sala ao lado do centro cirúrgico, ela voltou a sorrir seu triste sorriso amarelado. O sorriso da minha mãe está precisando de óleo singer. A camisa da minha esperança está precisando de alguns botões. Ela será costurada: agulhas, tecidos, pele, vísceras, epiderme e minhas palavras. Minhas palavras não podem costurá-la com segurança. Ela é um tecido com medo. Sou uma palavra dúbia. Uma caneta que tenta garantir seu melhor zigue zague. Estamos em alto mar.

 

Duas horas da tarde. Entro no meu carro. Antes de costurar as ruas ligo o ar condicionado. Faz trinta e três graus em São Paulo. Já não sei mais o que é viver fora de um ar condicionado. Sou uma palavra quente. Não trabalhei. Tirei o dia para resolver as costuras da minha mãe. Acabei de juntar todos os papeis pré-operatórios. Agora ela se parece com uma tartaruga. Carrega no lugar do casco uma pasta repleta de exames e diagnósticos. Suas costas estão pesadas de papéis e palavras. Os médicos de hoje não sabem costurar o mesmo pano nem usar a mesma palavra para chegarem a uma mesma conclusão. Cada um escreve um laudo. Cada um costura um zigue-zague em eterna contradição. Ainda bem que sei decifrar arabescos.

 

A vida me deu o privilégio de ter alguns amigos médicos. Meu telefone toca, eles me garantem que ela ficará bem. Às vezes, meus amigos e eu, falamos a mesma linha sobre o mesmo pano. Ela ficará bem!! eles insistem. Semana que vem vou terminar de escrever meu livro. Semana que vem minha mãe será costurada. Entre agulhas e palavras a vida vai abrindo suas trincheiras.

 

Estou em casa. São quase dez horas da noite. Já passei minha roupa e antes de apagar a luz leio mais alguns trechos do livro. O telefone toca. Quem ousa me ligar nesse horário e na minha casa? Apenas cinco pessoas possuem o número da minha residência. Todos sabem que não gosto de ser incomodada quando estou na minha casa. Atendo equivocada e do outro lado minha filha de sessenta anos agradece por eu ter estado o dia todo cuidando dela. Confessou que só depois que me viu conversando com o cirurgião, entre palavras difíceis, foi que conseguiu costurar em paz. De palavras difíceis ela sabe que entendo. De panos e costuras, sei que ela entende. Ligou pra dizer que fez uma outra regata pra mim. Uma regata branca e com gola, do jeito que ela sabe que gosto e que só ela sabe costurar. Quando o telefone tocou eu escrevia essa crônica falando dela. Ela com as agulhas. Eu com as palavras. Nossa vida será um eterno zigue-zague. Estaremos costuradas no fim do emaranhado.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Flash Back

Por Luciana Nepomuceno…

the-end-old-movie

 

 

Lembrar é um pouco fazer-se de mágico. Quando começamos a puxar as memórias da manga, seguem-se - como lenços - coloridas, interligadas, aparentemente infindáveis. Os filmes fazem as vezes de palavras mágicas pra mim. Há pessoas que evocam o passado com músicas. Uma trilha sonora para o passar dos dias. Eu lembro e me lembro em imagens, diálogos, sequências. Eu lembro e me lembro em filmes. Os filmes que vi, que me marcaram, lembro deles e lembro imediatamente de como eu estava, com o que sonhava, quais minhas preocupações e alegrias.

 

Deixo o pensamento correr em marcha a ré e me vejo, menina. Os meus filmes eram, quase todos, na televisão. O cinema, em tela grande e pipoca, era pras férias. Eu, pequena: brincar na rua, me esconder do meu vizinho da frente que dizia que era meu namorado, fazer tarefas da escola. E querer ser meu pai. Meu pai é um baita cara. Quando eu era criança, queria ser igualzinha a ele. Hoje, muitos anos passados e experiências vividas, muitas pessoas e situações conhecidas, ainda quero exatamente a mesma coisa. Ser como ele é. Meu pai sabe amar e ser amado. Com ele aprendi a tolerância. O sorrir fácil. Foi espiando sua fala que fui aprendendo que ser gente é bem mais difícil do que parece: exige bondades. Foi observando seus dias que fui descobrindo: ser gente é bem mais fácil do que parece: demanda entregas. Meu pai é de coragens. E força. Meu pai é de vulnerabilidades. E generosidade. Construiu Brasília com as próprias mãos. Construiu um mundo de afeto pra nós com seus próprios sonhos. Com ele, aprendi a dizer, inclusive não, mesmo pra ele. Aprendi as cores vermelho e preto para a paixão. Aprendi o sofrer na canção. Aprendi o cavalgar para o destino. Deu-me ele: flamengo, Maysa e faroestes.

 

Então, a televisão, o sofá, os filmes. Eu gostava de ficar ali, pequena, vendo com os olhos imensamente bons e adultos do meu pai. Sabia que se eu aprendesse alguma coisa do que ele via, eu veria o mundo em sorrisos e generosidade. Porque ele é assim: bom. Enfim, no princípio era o Oeste e o Oeste era deus. Nem lembro quantos filmes desses eu vi: o cavaleiro solitário, os duelos, o saloon, as mulheres muito decotadas, as cartas, o cavaleiro novamente solitário. Eu imitava os pistoleiros e adorava fingir que bebia uísque ou sabia jogar pôquer. E, claro, dançava can-can. Eu era quem partia no cavalo, eu era quem ficava à janela. E eu era o próprio indomado espaço. Ver faroestes me libertava. E me aprisionava no anseio de ouvir aquelas trilhas sonoras hipnóticas, viciantes. Aquele assovio que escuto até hoje, música de fundo para as partidas, as decisões ou, simplesmente, um pôr-do-sol solitariamente contemplado.

 

Os faroestes possuem uma série de características que me comovem: honra e rude bondade. Um certo desconforto e o fato de nunca, nunca ser o bastante. O vasto horizonte e o risco sempre perto, sempre próximo. A aridez da vida e a felicidade temporária e transitória. Heróis vulneráveis e duros. A solidão. A violência sempre presente e sempre perturbadora. As desilusões, os grandes gestos, os inesquecíveis duelos. Era uma vez no Oeste, é sempre a mesma vez nos meus desejos. Penso que o faroeste é cinematográfico por essência, vocação e história - do drama à comédia, passando pela ficção científica e pelos épicos, os demais gêneros têm nobres antecedentes no teatro e na literatura, mas o faroeste, fora tênues subprodutos, é vocacionado para as telas, talvez porque o cenário seja tão relevante para o gênero, só aquelas imagens daquele tempo e lugar poderiam suportar as dimensões dos faroestes.

 

O faroeste tem heróis. Mas heróis que não voam, não têm superpoderes, não são invulneráveis e, a bem da verdade, só se envolvem nestas coisas de bem comum por um incidente qualquer. São solitários os homens do Oeste. E me dói e me comove que assim o sejam. E não os queria outros.

 

Penso nos faroestes, nas lembranças que evocam e tenho cá pra mim que se devia ver mais destes filmes nos tempos que correm. Devíamos ver mais faroeste, aqueles, antigos, com mocinhos e bandidos. Porque se não se aprendesse por um lado, sempre se podia aprender pelo outro. Explico. Pode-se aprender pelo avesso. Pega um filme qualquer do Wayne. Era tudo bem esquemático, mesmo quando os personagens metiam-se a complexos. Nunca havia dúvida sobre quem era do bem e quem era do mal. Um mundo organizado e delimitado, porque do lado de cá da tela é uma bandalheira. Deixar o preto e o branco lá e, pra vida, reconhecer as nuances das cores, não lhes parece uma herança boa? Entender que há mais contradições, interesses e aspectos em uma questão do que o óbvio de dois extremos caricatos? Ou, claro, pode-se aprender pelo exemplo. A ordem das coisas nos faroestes eram simples. Claras. A construção da narrativa não deixava dúvida: o tal mocinho era bom – nós o reconhecíamos assim - porque ele fazia coisas boas e não o desajeitado e essencialista: ele fazia coisas boas porque era intrinsecamente bom. Nos faroestes não se julgam intenções. Ninguém quer saber se a pessoa está lutando contra os pistoleiros pra fazer de conta que é legal e tacar o beijo na mocinha. O que importa é que, lutando contra os pistoleiros, ele salva uma cidade inteira da opressão e do medo. É meio evidente que a mocinha queira beijá-lo. Um bocado de gente fica a querer. Eu mesma, já não mais tão criança, fui aprendendo a desejar nos meus homens algo que se passava com os homens que cavalgavam contra o sol naqueles enormes desfiladeiros. Os faroestes acompanharam minhas mudanças e fazem par com as lembranças que me acompanham.

 

Por serem tão próximos e queridos, não os coloco em ordem de preferência. Como escolher um único Wayne? O melhor Sergio Leone? O mais emblemático pistoleiro? O melhor duelo? Como dizer Ford ou Hawks? Cada filme tem sua força e deixou sua marca em minha caixinha de lembranças. Como Big Jack. Repleto de ação, humor e tiroteios hipnóticos, faz contraponto entre a pífia atuação oficial em frágeis automóveis dos agentes da lei e a arrogante e máscula campanha do herói que a 18 anos não via sua mulher. É um filme que me diverte e empolga sempre, e o que mais se pode querer do cinema? Ou todo o choro e o aprender a lidar com perdas e mudanças em Sete Homens e um destino: um filme em que eu ri. E chorei. E me zanguei. E ri de novo. E, um tantinho, me apaixonei pelo careca. Sempre me doía pensar que aqueles sete magníficos eram mais baratos do que comprar armas. Há cenas maravilhosas e diálogos impecáveis (os faroestes sempre têm poucas falas, mas os bons faroestes fazem disso um trunfo colocando sempre frases lendárias entre uma bala e outra). Tem uma trilha sonora envolvente. Há a preparação para a perda e a certeza da cruel continuidade da vida. Há uma pergunta que sempre se coloca como impossível pra mim: mais vale o que fica ou o que segue? E daí pulamos pro Gregory Peck e seu Duelo ao Sol. É estranhamente sexy para um faroeste. E, mais além, é trágico, com aquela beleza que só o impossível consegue emprestar a tudo o mais. É, para mim, um filme sobre escolhas. E com tão ricas cores e possibilidades que sempre que o revejo me espanta que se fizesse filmes assim e que não se faça mais. Para entrar na minha lista de boas lembranças, um bom título sempre ajuda. Foi Três homens em conflito, mas eu prefiro dizer: O Bom, O Mau e o Feio. Mas o filme tem mais, muito mais que um bom título. Tem a sequencia de abertura em que se apresenta, com requinte, cada um dos protagonistas (ou antagonistas, pra ser mais precisa). Nesse filme só falta diligências. E, claro, o Wayne. Mas tem tiroteio, pistoleiro, prostituta, cinismo, mocinhos barbados, cavalos, paisagens áridas...e uma história maravilhosa, rica, convincente, densa. Há longas sequências sem cortes que criam clima e aumentam a tensão até quase me fazer gritar. Há o contraste brilhante entre tomadas panorâmicas e closes de rostos fortes, duros, sujos, cínicos, impressionantes. O filme tem personagens, personagens complexos e muito bem interpretados. Já não falta Wayne nem No Tempo das Diligências nem no Rio Vermelho. Ambos tem Wayne e lançam as bases dos arquétipos que amo: o homem livre, forte, que deve impor-se pela força ao ambiente, seja natural ou social. As ambientações são impressionantes e o que o herói deve fazer se coloca inexorável. Rio Vermelho ganha por uma cabeça: a do Montgomery Clift. O homem é um só, eu aprendi, eu lembro. Aprendi a lidar com minha incompletude, a aceitar as minhas limitações. E as dos outros. A entender que o humano é sempre a desejar. A temer. O humano é verbo que precisa de objeto. A solidão das decisões, recordo em Onde começa o inferno. E mais: a covardia, a coragem, a escolha. Há ainda a violência dolorida e explícita (embora hoje quase terna) de Meu ódio será sua herança; o irrevogável tom trágico em O Último pôr-do-sol; o esquemático mas arrebatador Shane (que quase hereticamente insisto em chamar de os brutos também amam, menos porque me parece verdade e mais pelo tanto que eu gostaria que fosse); o amoroso, reverente e ainda assim crítico Era uma vez no Oeste ; o humor desesperado e a terna nostalgia de Butch Cassidy e Sundance Kid; o Wyatt Earp de Fonda/Ford em Paixão dos Fortes; a amargura e a complexidade de Jogos & Trapaças - Quando os Homens são Homens retratando a pressa da civilização e a perda da ingenuidade; o épico Da terra nascem os homens – e, outra vez, a sedução madura de Gregory Peck; o embate entre Fonda e Wayne em Sangue de Heróis; as intensas mulheres de Johny Guitar e O Diabo feito mulher; o talento de James Stewart em O Preço de um Homem.

 

Estes dias revi dois filmes que me lembraram o que amo ou, ainda, porque amo. Há dois homens, e eles são – concomitantemente – iguais e tão distintos quanto se pode – aparentemente - ser. Will Kane e Rooster Cogburn, respectivamente Gary Cooper e John Wayne em Matar ou Morrer e Bravura Indômita. Ambos já não são jovens, vemos em seus rostos o cansaço de uma vida difícil. Ambos têm uma tarefa a cumprir. Will Kane é um delegado prestes a passara bola que se depara com uma situação conflituosa ressurgida do passado, Rooster Cogburn é um agente federal que aceita o trabalho de procurar e capturar um fugitivo em território indígena. Wiil Kane é um homem ilibado, ético, determinado, impecável e reconhecido por todos como gente boa. Rooster Cogburn é um bêbado, um tanto violento, displicente e com moral frouxa.

 

Kane e Rooster são os homens que amo em cada homem que eu amo. Eu amo o andar angustiado de Kane e o gingado insolente de Rooster. Amo o abraço generoso de Kane e a cavalgada solitária de Rooster. Por baixo do tapa-olho, da estrela de latão, por baixo do silêncio eloquente ou da conversa bêbada, estão eles: homens que se sabem comprometidos com algo além deles, além de mim, além do óbvio. Algo que não se consegue definir com precisão mas se reconhece em situações extremas. Eu os amo no seu amor pela sua missão. Pela sua coragem e pelo conhecimento dos seus limites e da necessidade de ultrapassá-los.

 

Há um poeta inglês do séc. XVII, Lovelace, que termina sua poesia “To Lucasta, going to the Wars” deste jeito: “I could not love thee, Dear, so much,  Loved I not Honour more” - que eu entendo assim: não te amaria tanto, querida, não amasse mais a honra . É isso que amo nos homens que amo: essa convicção interna, esse núcleo seguro, essa ternura revestida em coragem. Essa independência. Então, eu penso, tão bom e tão útil uma sessão de faroeste. Pra ver Shane partir sozinho. Pra ver a porta que se fecha isolando Wayne em Rastros de Ódio. Pra saber dos que partem, solitários e sem raiz. Porque o custo de um esquema do bem absoluto é a absoluta solidão. O desencontro. Quem não viu o faroeste, não sabe que os que ficam, que tem amigos, famílias, filhos, risos e sonhos são os quase-certos, quase errados, os que podem ser heróicos, às vezes, mas são mesmo, quase sempre, é humanos.  Tão meus filmes que nem sei dizer algo que não seja: o coração é um bravio território. Inexplorado.